Textos.

Atreva-se a ler um dos meus textos.
Árvore
As travas apertam a cintura. Ela nunca tinha ido na montanha russa sozinha. De onde ela veio não tinham essas coisas, era uma cidade pequena, ela era pequena, sua alma, sua cabeça pequena.
Caravela
Como era de costume, em toda visita do tio, eles precisavam ir nadar no rio. Sua irmã preparava alguns quitutes e faziam um pic-nic na margem de um rio a que se referiam como prainha. Ele sempre aparecia de surpresa, buscava os sobrinhos na escola sem o conhecimento da irmã e passavam a tarde juntos. Ela não reclamava, o marido viajava na maior parte do tempo e os meninos adoravam o tio.
Portal
Era uma espécie de portal, duas colunas grandes acinzentadas. Havia o caos e a destruição. Ele tinha medo do escuro quando era pequeno, por isso mesmo fazia questão de estar ali a noite, pra se sentir incomodado, pra perder o controle da respiração, pra suportar sua mente disparando milhares de mensagens assustadoras, para temer a possibilidade de todos os perigos, imaginar as piores coisas que poderiam acontecer e sofrer o terror e pânico deixando as pernas bambas.
A carta
Eu posso sentir você dominando a minha alma e enlouquecendo minha mente, quando olho pro espelho e te vejo, quando falo ouço a sua voz. Por várias vezes eu quis nunca ter te amado, nunca ter deixado me enganar, deveria ter fugido, ter te abandonado. Eu cheguei a pensar que isso fosse normal, tinha que ser dessa maneira, o amor era assim, eu estava condenada a te amar e te amar do exato jeito que era, mesmo quando brincava com os meus sentimentos, quando mexia com a minha cabeça...
O porco Era o dia mais bonito do ano, o sol estava laranja no fim do horizonte, e eu como sempre estava me perdendo no meio do mato entre sítios de criação de porcos, eu adorava o cheiro deles, ao contrário do que possam pensar, porcos não fedem, eles não ficam envoltos em fezes afinal, ficam sujos de barro com lavagem que tosta nos seus couros sob o sol destilando um perfume de terra que secou rapidamente após a chuva. Eu adorava esse cheiro, eu me sentia assim, um sobrevivente da podridão.
Pia É tarde da noite, ela vai lavar a louça, a cozinha está uma bagunça, caixas de comida para todos os lados, a pia entupida de louça, sábado à noite, ela vai lavar a louça, lavar a louça.
Entra um milhão de corvos pela janela, escurece na cozinha, é tudo culpa dele, é tudo culpa do Valtão, ele a drogou, ela sabia disso.
Ela Os carros passam em alta velocidade deslocando o ar frio pelo corpo dela, andando na calçada de cabeça baixa se abraçando para se proteger do vento, parecia começar a garoar, era o caos que se aproximava.
"Que você acha disso hein Murilo? Que acha dessa merda toda? Parece bastante construtivo pra você? Parece que alguma coisa está acontecendo na sua vida agora?"
Ônibus Seus peitos sacolejavam junto com as sacolas, ela se segurava na janela tentando tomar o máximo de ar na face. Aquela viagem terrível e cansativa, ela só conseguiria suportar se se concentrasse em enxergar as coisas com uma visão totalmente diferente.
Fechar os olhos, sentir o vento no rosto, a fronte ficando fria, a ansiedade crescendo dentro de si, queria permanecer feito uma estátua até o ônibus para no seu ponto, ela desceria, sem dizer nenhuma palavra, sem colocar qualquer expressão na face, sem nem pensar no que estava fazendo, andaria numa linha reta até a sua casa, entraria debaixo do chuveiro, e só aí iria pensar em si novamente, iria pensar na sua vida, iria pensar no mundo ao seu redor. Leia
Agulhas E de repente, um certo dia, Oswaldao pegou sua jaqueta, as chaves do carro e foi embora pra nunca mais voltar.
E ela permaneceu do jeito que ele a havia deixado, sentada na cadeira preta olhando para a maçaneta da porta fazendo tricô com uma precisão tão mecânica que nem sequer conferia o trabalho. Acordava as sete e meia da manhã, preparava o café pra ela e Oswaldao, realizava suas tarefas domésticas e retornava para seu ritual artesanal. As onze horas preparava o almoço, o prato preferido dele, arroz, feijão, bife a milanesa e purê de batatas.
Livro: O Clube B613 Coloquei gás no carro faz quase um ano, me arrependi. Agora não compensa mais, o preço do gás subiu muito, estraga o motor, e agora tem o flex também.
O outro concordava com a cabeça. As mãos enfiadas nos bolsos das calças jeans apertadas e surradas. Um pé na rua e o outro apoiado na quina da calçada. Algumas pessoas se cumprimentando na varanda do salão. Lá dentro, perto da parede, algumas mulheres confidenciavam em voz baixa: "Vivia sempre bem arrumadinho. Sempre de terno, cabelo "penteadinho". Ele era bem vaidoso.
Tempestades Porque todos os seus livros tem mortes? - Perguntou ela com expressão de desdém.
- Porque sim. Uma morte abre a história e tira o equilíbrio de tudo, outra morte fecha o ciclo devolvendo o equilíbrio - Respondeu ele parecendo confuso. Na verdade não estava, aquilo tinha um sentindo muito mais poético dentro de si, mas não queria transparecer pra sua irmã que pensava muito na morte.
A VelhaA feira estava movimentada como sempre, os odores se confundiam, o pastel fritava, os aslfalto rescendia a peixe, as frutas estavam acabando, sobravam apenas aqueles objetos pitorescos como vestido de algodão, brinquedos de plástico, bijouterias e panelas de pressão.
- Ela já parou de fumar?
Corrida na PaulistaComeçou como uma brincadeira boba. Ver quem percorria toda a Av. Paulista de bicicleta mais rápido.
Os cinco se juntavam toda noite às 23 horas na Praça Oswaldo Cruz em frente ao shopping
Através da JanelaA primeira vez que ele reparou nela foi por mero acaso. Ela estava nua deitada no sofá, do outro lado da janela. Sem muito refletir ele se pôs logo a tirar a roupa também, porém, não chegou a realizar nenhum outro movimento, pois ela se levantou, desligou a televisão, vestiu-se e foi arranjar suas coisas.
Eram dez horas, em ponto. Ela não colocaria a roupa para voltar a tirar, mesmo porque já estava de pijamas, e provavelmente em breve iria dormir, mas por via das dúvidas, ele vestiu o samba-canção e hora ou outra conferia a situação da vizinha.
MetrôAlguns o encaravam, outros tentavam disfarçar, outros ignorar. O metrô estava lotado, o ar estava quente, e ele no auge do seus 43 anos chorava feito uma criança, um choro alto, com soluços, lagrimas escorrendo junto com o nariz. Por um momento ficou chorando até que aquele sentimento se transfigurasse dentro dele, se transformou numa resignação, chorava como se lamentasse por ter chorado, e pouco a pouco cada vez mais racional e menos emotivo acalmou-se com certo orgulho de sua coragem de ceder ä um sentimento tão genuíno.
Paradigmas Se você soubesse qual seria o seu fim, se entregaria a ele de bom grado? Esperaria conformado o momento chegar e cumpriria com seu destino?
Remediando E de repente se deu conta que o medicamento não estava fazendo efeito nenhum. Dois anos tomando aquele antidepressivo e deu na mesma, nada.
Pouco a pouco foi se sentindo cada vez mais deprimida, mas recusou-se a enxergar o problema. Talvez fosse o trabalho que estava mais chato ou então aquele lote do remédio que estivesse mais fraco mas decidiu não pensar naquilo, se limitou a ficarjogada na cama durante dias inteiros e só quando fechou os olhos e se imaginou dando um tiro na têmpora que resolveu admitir a verdade incontestável de que aquele remédio não estava lhe ajudando e que a felicidade que tanto acreditava sentir não era nada.
Suporte Estava deitado em sua cama mas não conseguia dormir, 2:00 da manhã marcava o visor do celular, teria de acordar dali a 4 horas para ir trabalhar.
Morava com a família num bairro residencial de São Bernardo do Campo. Tinha 19 anos, 120kg e 1.90m, um menino forte porém não muito dado à exercícios, trabalha período integral numa dessas empresas de telemarketing recebendo de ligações de pedido de suporte à acesso a internet e no tempo livre joga jogos de computador.
MochilaEra um ambiente tranquilo que Jorge gostava de frequentar nos fins de semana. Um "boteco" numa travessa da avenida principal. Aos domingos tocava blues. Jorge gostava de blues, achava que combinava com a sua melancolia, passou a ter orgulho disso depois de ter lido "O sol também se levanta", sabia que tinha que parar de ler Hemingway, mas gostava porque o risco de morrer como ele era o que lhe ocorria de mais emocionante nesses tempos. Gostava de ficar debruçado no balcão com um copo de Whisky dividido por doses de tequila cronometradas.