Agulhas.


E de repente, um certo dia, Oswaldao pegou sua jaqueta, as chaves do carro e foi embora pra nunca mais voltar.
E ela permaneceu do jeito que ele a havia deixado, sentada na cadeira preta olhando para a maçaneta da porta fazendo tricô com uma precisão tão mecânica que nem sequer conferia o trabalho. Acordava as sete e meia da manhã, preparava o café pra ela e Oswaldao, realizava suas tarefas domésticas e retornava para seu ritual artesanal. As onze horas preparava o almoço, o prato preferido dele, arroz, feijão, bife a milanesa e purê de batatas.
Fazia sua oração agradecendo pelo alimento e pela vida de Oswaldao.Almoçava no canto da mesa onde podia mirar a porta.
Em seguida joagava o café do copo dele pelo ralo da pia, lavava a louça e retomava as agulhas.
O marido sempre chegava do trabalho as dezenove, por isso ela esperava até as dezenove e trinta para trancar a porta.
Prepara o jantar, agradece, come, limpa, pega o crochê e liga a tv no jornal que ele gosta de assistir.
E foi assim que se manteve pelos próximos trinta dias até que algo especial ocorreu, numa reportagem sobre a heroína uma jovem que devia ter sido bonita contava sua história, algumas lágrimas escorriam por aquele rosto magro.
Foi dormir pensando naquela garota, em como tinha algo em comum com ela que não sabia exatamente o que era, uma semelhança ou um anseio de identificação que ela almejava.
No dia seguinte fez café somente para ela, deu o último nó no crochê e vestiu a blusa que naquela altura já estava do tamanho de um sobretudo, pegou o dinheiro que escondia dentro do açucareiro no armário das louças e saiu.
Passando pelo portão viu que as contas e correspondências se tumultuavam fazendo parecer que a caixa de correio estava vomitando.
Pegou o trem e desceu na estação Júlio Prestes, caminhou um bocado de salto alto até a cracolandia e perguntou a um rapaz que estava deitado no chão onde ela poderia comprar heroína.
O mendigo tirou do bolso algumas embalagens que mais parecia sujeira e ofereceu pra ela dizendo: "cinquentinha".
Ela torceu o bico e resmungou que o mendigo estava tentando passar a perna nela. Colocou uma nota de vinte reais na mão dele, pegou os saquinhos e saiu andando, dados poucos passos seu traficante gritou: espera, a senhora esqueceu a agulha. Ela retornou, pegou a seringa da mão dele e colocou nela mais três moedas de um real.
Colocou tudo na bolsa e foi para a casa.
Quando Oswaldao voltou não tinha mais energia elétrica na casa, a água também havia sido cortada e o gás estava quase no fim.
Ela estava lá, naquela mesma posição que havia deixado, sentada na cadeira preta de frente para a porta, repousava com as duas agulhas nas mãos e outra enfiada no braço.
Oswaldao recolheu delicamente as agulhas, pegou-a nos braços e depositou ela na cama.
No dia seguite ela acordou as sete e meia da manhã, seguiu para a cozinha preparar o café e pôs-se a tricotar novamente, como se nada tivesse acontecido, e não aconteceu.