A Árvore


As travas apertam a cintura. Ela nunca tinha ido na montanha russa sozinha. De onde ela veio não tinham essas coisas, era uma cidade pequena, ela era pequena, sua alma, sua cabeça pequena.
O frio na barriga era a sensação que mais odiava, sentia falta de Natan, mesmo sabendo que ele era um cretino que a abandonou num lugar que ela não conhecia. Sentiu saudades mais uma vez do sítio, de seus pais, de ser criança. Pensou mais uma vez em como seria se não tivesse se casado com Natan e vendido tudo para morar com os pais dele na capital. Ninguém mais que a conhecia estava por perto. Se uma árvore cai no meio da floresta e ninguém está lá para ouvir, faz barulho? Ela era a árvore no meio da floresta, não existia ninguém que pudesse ser testemunha de sua existência, não havia ninguém para lhe fazer lembrar quem era, ela não tinha mais nenhum ponto de referência, era ninguém em lugar nenhum.
Claro que tinham as colegas de trabalho, mas elas a conheciam há apenas 3 anos. Tinham conhecido essa versão modificada pelo Natan, ele era a única pessoa viva que a tinha conhecido antes de tudo. Ele adorava montanha russa, quando iam juntos ela segurava forte na mão dele e tinha a impressão que ele a guiava pelo mundo. Será que era culpa dela não ser o tipo de mulher que ele queria? O carrinho continuava a subir e o frio na barriga dela aumentava. Tinha medo da descida, tinha medo de tudo que havia por vir, tinha medo de ficar sozinha, medo de não ser ela mesmo, de não ser ninguém em lugar nenhum. Quando pensou nisso desatou a chorar. Chorava, chorava e chorava. Como se quisesse vomitar aos pouquinhos todo vazio que sentia no estômago nas golfadas de ar. Quando se recuperou ficou catatônica olhando todas as pessoas lá em baixo já pequeninas, pareciam ser alguém? Será que seriam alguém? Ou não seriam ninguém também? Foi quando se deu conta de que todas elas não eram ninguém em lugar nenhum, que somos todos árvores no meio da floresta e ninguém está lá para nos ouvir cair. De repente passou a gostar do frio na barriga, como o presságio de uma experiência radical.
Ela sorriu
Tratahctahtchatchatchatachtahctahctha