Caravela.


Como era de costume, em toda visita do tio, eles precisavam ir nadar no rio. Sua irmã preparava alguns quitutes e faziam um pic-nic na margem de um rio a que se referiam como prainha. Ele sempre aparecia de surpresa, buscava os sobrinhos na escola sem o conhecimento da irmã e passavam a tarde juntos. Ela não reclamava, o marido viajava na maior parte do tempo e os meninos adoravam o tio.
O dia estava bem quente, sem nuvens no céu, o sol a pino, escolheram um lugar debaixo de uma árvore para organizarem as coisas. O mais velho tirou a camiseta com pressa e se jogou na água e o caçula como sempre o imitou e pulou logo atrás.
- Você está ficando a cara dele sabia? - Disse sua irmã na primeira oportunidade. Ele torceu o bico, não queria mostrar que o comentário desagradava ou agradava, mas que já sabia as intenções da irmã.
As horas passaram como minutos, os meninos subiam num galho cumprido de uma árvore na margem do rio e pulavam espalhando máximo de água que conseguiam, o objetivo deles era molhar o tio sentado na grama. Ele passou o dia conversando com a irmã, sobre o trabalho, os relacionamentos, mas não importava por onde ele começava ela acabava falando no pai, falecido pastor da igreja assembleia de deus,
Começou a entardecer, os meninos já estavam com os lábios roxos e rachados, saíram da água para comer os lanches, se secaram e ficaram deitados junto a mãe enrolados na toalha, pouco depois caíram no sono e o tio ficou vendo o por do sol, quando finalmente tudo escureceu ele entrou no rio sem hesitar, tirou apenas os chinelos, e conforme avançava sentia a camisa e a bermuda grudarem no corpo, parecia uma extensão da sua própria pele, como guelras, como asas. Adorava fazer aquilo desde criança, sempre que fazia algo de errado vinha no rio se purificar. Sentia a correnteza atravessando o corpo e o purificando, a água carregava o passado pra trás.
E eis que ela surge, enorme, uma caravela feita toda de madeira atravessou vagarosamente o rio.
Ele não se moveu, ficou acompanhando com os olhos aquela embarcação gigantesca passar lentamente por ele. Começava a esfriar, estava tudo silencioso e vazio, exceto pela caravela que parecia ocupar o cenário inteiro. Todos ainda dormiam, e a caravela sumiu no horizonte lhe deixando sozinho. Suspirou e deixou seu corpo cair pra trás, abriu os braços aceitando que a correnteza o carregasse. Percorreu quilômetros boiando na superfície das águas, sem pensar em nada, apenas olhando as estrelas no céu escuro. Fechou os olhos desejando esquecer tudo, esquecer seu trabalho, sua vida, sua irmã, seu pai. Nesse momento sente algo prender na camisa, abre os olhos lentamente e vê que um senhor lhe segura. Ele o encarava com um sorriso confortador.
Sabe o que significa a caravela? - o homem perguntou.
A caravela prenuncia o naufrágio - respondeu ele.
O homem sorriu e confirmou inclinando a cabeça e fechando os olhos. Soltou a camisa permitindo mais uma vez que fosse arrastado pelas águas. Enquanto se afastava pode ver aquele velho senhor ficando cada vez menor. Fechou os olhos, prendeu a respiração e afundou.
- Tio? Você está bem? Mãe ele acordou!!!.
Ele estava no pronto-socorro da cidade.
- Um pescador te encontrou bem mais pra baixo no rio. Como você se afogou?
- Não sei.
- Foi a assombração? Você viu a caravela?
Ele toma um susto nesse momento.
- Que caravela?
- Os mais velhos no cidade dizem que tem uma caravela mal assombrada que surge no rio e afoga as pessoas.
- Não, nenhuma assombração me afogou.
Sua irmã se aproximou. Parecia triste, ela fazia aquela cara como se já esperasse o ocorrido. Parecia já saber de tudo, era apenas mais uma de suas crises.
Tendo saído do hospital não demorou muito para que ele quisesse arrumar as suas coisas e ir embora. Sua irmã e sobrinhos tentaram impedir mas ela sabia que não adiantava insistir, aquilo já tinha acontecido milhares de vezes antes.
Ele entra no carro mas sabe que precisa passar em um lugar antes de ir embora, a antiga igreja, ainda uma capela humilde na saída da cidade. Entra pela porta da frente passando a mão nos bancos e na parede. O atual pastor estava no fundo.
- Seu pai sempre me dizia que você um dia o substituiria.
Ele continuou olhando para os lado sem saber o que dizer, tentava buscar no teto algum sentimento de familiaridade, tentava se sentir ele mesmo, se sentir o mesmo que era quando criança. Queria trazer de volta a devoção que tinha pela vida, a esperança em si mesmo. Mas tudo parecia diferente, parecia menor, mais medíocre.
- Se rebelou contra Deus?
Sabia que o pastor tentaria fazer aquilo, todos tentam, resgatar a alma dele, convencê-lo de que precisa se corrigir, de que precisa voltar para seu caminho, como se houvesse algum caminho.
- Eu apenas me tornei cínico demais.
- Não acredita mais na bíblia?
- Não acredito mais em nada que seja sobrenatural.
- Tem certeza?
Ele se lembrou o que tinha acontecido na noite anterior, a caravela mal assombrada, ironicamente assombrações era algo sobrenatural em que ele já não cria, mesmo quando ainda era convicto no cristianismo.
Deixou a cidade sem falar mais nenhuma palavra, dirigia para longe, tinha a sensação de que a estrada não se projetava para frente, e sim para baixo, se sentia como se estivesse afundando de volta para sua vida, parecia sufocar, estava naufragando.