A Carta


Eu posso sentir você dominando a minha alma e enlouquecendo minha mente, quando olho pro espelho e te vejo, quando falo ouço a sua voz. Por várias vezes eu quis nunca ter te amado, nunca ter deixado me enganar, deveria ter fugido, ter te abandonado. Eu cheguei a pensar que isso fosse normal, tinha que ser dessa maneira, o amor era assim, eu estava condenada a te amar e te amar do exato jeito que era, mesmo quando brincava com os meus sentimentos, quando mexia com a minha cabeça, mesmo quando me fazia acreditar que eu era a culpada, que não te amava o suficiente. Não podia ter considerado nem por um único instante que seus chingamentos poderiam ser legítimos, que talvez eu que estivesse errada, errada demais pra enxergar a verdade. Você governava a minha vida, era o meu deus, eu pensava em você o tempo todo, sempre que algo acontecia dentro ou fora da minha consciência meu primeiro instinto era tentar imaginar o que você pensaria disso, como te afetaria. E quando a sua doença começou a progredir eu tentei não me sentir aliviada, me esforçava para sofrer por você, pra te amar verdadeiramente até o último instante, amor só é amor de verdade se for um compromisso eterno, eu dizia para mim mesma, eu me doutrinava para me submeter incondicionalmente. Deve ter sido aí que tudo começou, quando passei a me anular completamente por você, meu exercício pessoal de desapago de mim mesma a cada dia, aniquilando pouco a pouco a minha identidade, me esforçando para desacreditar cada ideal ou valor que eu tivesse, para assimilar todos os seus discursos morais, tudo o que você pensava, querendo crer totalmente no que você acreditava, enxergar o mundo do seu modo. E quando a morte finalmente veio é claro que não consegui abandonar o seu espírito dentro de mim, não consegui deixar de sentir a sua presença. Mesmo morto você ainda me tortura, você brinca com a a minha sanidade, fico pensando se não consigo existir sem você por causa dos anos de abuso psicológico ou se é apenas porque está cumprindo a promessa da maldição que lançou em mim no seu leito de morte, suas últimas palavras, sua última oportunidade de dizer algo nesse mundo, de respirar esse ar, e você as usou para me amaldiçoar, devia mesmo me amar pois mesmo a sua morte era destinada a mim. No começo eu nem pensei sobre isso, achei que poderia simplesmente continuar existindo, eu tentava não me lembrar de nada, procurava não remoer as décadas que passamos juntos, empenhava-me apenas em seguir vivendo, mas é óbvio que um dia finalmente acabaria me deparando com o fato de que não era a mesma vida, uma vida nova tinha começado, uma vida sem você, tudo era diferente, embora eu quisesse não pensar em quanto poder tem de me desequilibrar, não admitir a importância absoluta que tem no meu universo, conforme o tempo passava a sensação de que eu precisava encarar a minha vida aumentava, eu tinha a necessidade de me confrontar pois não dispunha mais de você para me dizer o que fazer, o que pensar, como agir, eu estava completamente só, condenada a ser livre, sentenciada a descobrir o que queria da vida sem você, mas não tinha como querer nada, pois não existia mais eu, eu me abandonei por você, e você estava morto, não havia nada mais além do vazio. Foi quando eu pensei pela primeira vez que sua maldição poderia ser verdade, e quando flertei com essa possibilidade ela não me saiu mais da cabeça, depois disso, todos as minhas ações e pensamentos me levavam a suspeitar de que na verdade era você me assombrando.
- Eu vou voltar e vou te possuir.
Suas últimas palavras, você as disse com ódio nos olhos pois me culpava pela sua morte, porém começo a acreditar que não estava apenas praguejando, talvez fosse uma promessa, um juramento de amor, que voltaria para ficar comigo, quem sabe não era mesmo eu a culpada o tempo todo, estava tão equivocada achando que você era um fardo na minha vida quando na verdade era a salvação, talvez eu estivesse iludida todas aqueles anos, estava cega demais ver o quão errada eu era, como você dizia, eu não era uma esposa direita, não era uma mulher correta, eu não pensava como um ser humano devia pensar, eu não existia como um ser humano devia existir. Isso me enlouquecia, ou era você o problema ou tinha que ser eu, mas quando você morreu o problema não deixou de existir, então talvez eu estivesse mesmo completamente enganada sobre tudo, as coisas na verdade eram exatamente o contrário do que eu pensava, como sempre havia me dito. Eu sentia vontade de ficar completamente paralisada no chão gelado, sentindo meu coração desacelerar, como num processo lento de deixar de existir. Foi naquele dia que eu fiquei horas olhando pro espelho que a minha insanidade atingiu um novo patamar, ou talvez fosse só você me possuindo completamente, como o demônio. Encarando o meu reflexo comecei a pensar que talvez eu realmente já não fosse mais eu mesma, eu era você, seu espírito dentro do meu corpo, aquele sofrimento todo acabaria quando eu desistisse de me debater e finalmente aceitasse a sua presença. Eu sorri um sorriso maldoso, eu te vi naquele sorriso, eu vi a maldade nos meus olhos, eu vi a sua maldade.
- Oi Clarice, saudades?
Um frio subiu pela minha espinha e eu dei um salto como se tivesse sido espetada por uma agulha para acordar de um sonho, tinha sido você ou estava apenas enlouquecendo?
No momento que considerei a possibilidade de ser você o estrago já estava feito, eu me segurava para não pensar nisso, mas esse pensamento me dominava a mente como um vírus, e eu sentia aquela vontade, aquela impulso de falar como você, de agir como você, de ser você, quando eu era você eu me sentia completa, perfeita, experimentava a onipotência, me sentia alguém, alguém de verdade, viva nesse mundo, e quando eu lutava contra esse sentimento não demorava pra presenciar o vazio, sentia vontade de não sentir, de não existir. É por isso então que estou escrevendo essa carta, minha última e maior prova de amor, o meu fim, vou abandonar-me para que você possa existir meu amor, você estava certo o tempo todo, eu sou uma aberração, eu não deveria existir, alguém com essa mentalidade, com esse espírito defeituoso, essa anomalia que eu sou, você tinha toda a razão. Viva meu amor, e se algum dia se achar culpado por minha causa, ou sentir pena de mim, não se arrependa, leia essa carta para se lembrar de que você fez a coisa certa, eu não quero mais existir e você merece isso, você sim é especial, digno de mais uma oportunidade de viver, eu não, eu não sou digna de mim, então eu te entrego meu corpo pois só você sabe o que é melhor para mim, eu te devo tudo, te devo a minha vida toda, ela é toda sua, viva, exista. Eu te amo.