O Clube B613

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- Coloquei gás no carro faz quase um ano, me arrependi. Agora não compensa mais, o preço do gás subiu muito, estraga o motor, e agora tem o flex também.
O outro concordava com a cabeça. As mãos enfiadas nos bolsos das calças jeans apertadas e surradas. Um pé na rua e o outro apoiado na quina da calçada. Algumas pessoas se cumprimentando na varanda do salão. Lá dentro, perto da parede, algumas mulheres confidenciavam em voz baixa: "Vivia sempre bem arrumadinho. Sempre de terno, cabelo "penteadinho". Ele era bem vaidoso.
Perto da mesa alguns comiam pequenos pedaços de bolo, se esforçando por serem discretos.
Uma mulher e um senhor choravam contidamente perto do caixão.
Uma coroa de flores encostada na parede portando uma faixa com os dizeres "À Ernesto Bandeira. Homenagem dos irmãos e amigos da igreja".
Uma espécie de caos controlado se instaurara no lugar. Pessoas encenando sofrimento se misturavam às pessoas encenando que sabiam lidar com a dor. Pessoas indiferentes, reunidas ali unicamente pela obrigação mórbida da ocasião. Pessoas tentando conter a alegria do reencontro de parentes distantes. Vladmir era um desses, quando Virginia, sua irmã veio avisar-lhes que seus primos de Lavapé haviam chegado.
Estavam ansiosos por alguém que lhes fizesse companhia naquela ocasião tão infeliz.
Vladmir abraçou Florbela com um sorriso constrangido. Ter que cumprir aquela formalidade sem sentido. Em seguida deu uma série de tapinhas nas costas de seu primo Fernando, imitando um gesto de seu pai.
- E aí? - perguntou Florbela - já foram ver ele?
- Só de longe - respondeu Vladmir.
Sentaram-se nas cadeiras, próximas à porta, com exceção de Fernando que estava cansado de sentar pois viera dirigindo.
- E o Thomas? Não veio Flô? - inquiriu Fernando com um sorriso sarcástico. Virginia sorriu também emitindo um "É!?".
Florbela lhe devolveu um sorriso de desgosto. Como se fizesse um esforço por suportar as brincadeiras do primo que não cessavam quanto ao ex-namorado.
- Você conhece toda essa gente? - perguntou Fernando a Vladmir como se quisesse mudar de assunto.
- É o pessoal de Sítio-Feliz. Primos dos nossos pais.
- Nossa não conheço ninguém.
- A gente foi na casa deles uma vez, mas acho que você era pequeno. A Flô deve lembrar.
- Só lembro-me daquele irmão do vô que contava história do cara que tinha uma rádio pirata.
- Ah é. O Balanga - concordou Vladmir.
- Flô, é melhor a gente ir lá ver antes que a mãe fique brava. Levantaram-se e seguiram os quatro rumo ao caixão próximo de onde Simone, a mãe de Fernando e Flô conversava com Dona Clarice, mãe de Vladmir e Virgínia.
Vladmir gostou de ir com sua prima ver o defunto, porque ela tinha transformado aquilo numa obrigação qualquer para evitar uma das constantes broncas de sua mãe. Eles se identificavam um com o outro porque nenhum impunha ao outro a obrigação de transformar aquilo num evento místico que devesse causar neles uma efusão de qualquer sentimento. Os quatro encaravam aquilo como ninguém mais no recinto. Como um evento trágico, que não podia deixar de acontecer, premiado com um ritual ilógico.
Deitado a frente, estava o avô deles. Sem nenhuma contração no rosto. Uma feição sem rigidez, quase que indiferente envolta numa pele lisa e macia. Um morto, um cadáver. E eles ali, contemplando a ironia daquela tarefa: contemplar o defunto.
Nenhum deles tinha sido criado com muita proximidade ao avô. A família inteira sempre o admirara e respeitara, o citando como alguém justo, honesto e correto.
Mas aqueles quatro netos os haviam visto poucas vezes ao ano, nas ocasiões festivas e feriados prolongados. Não tinham criado laços com ele. Mesmo sabendo que era antecedente de seu próprio sangue, não podiam mistificar a realidade insossa que se tratava de que a morte dele não os afetaria.
Sentiam pelos seus pais, claro. Oscar era o filho mais velho de Ernesto, e pai de Vladmir e Virginia. Chorava lágrimas confusas, como se tivesse sido enganado e não soubesse o que fazer.
Osvaldo, pai de Fernando e Florbela tentava manter uma boa postura, como numa forma de homenagear o pai solenemente.
Mas nenhum dos dois queria ser consolados pelos próprios filhos, como se eles não entendessem o a profundidade da situação.
Então após terem realizado todas as formalidades de cumprimentar todos os parentes. Ser simpático com os indiferentes, amável com os afetados, eles não viam sentido em permanecer naquele lugar, então, decidiram ir pro sítio do Sr Oscar. Ouviram uma reclamação qualquer de Dona Simone, e seguiram como que insatisfeitos com tudo aquilo.
Já anoitecia quando eles se foram.
Florbela insistiu com uma idéia de fazer fogueira para se sentarem ao redor. Todos consideravam aquela idéia patética. O típico clichê da juventude reunida. Por isso mesmo aceitaram, para fazer graça disso. Eles encenavam o ridículo justamente para poder desprezá-lo.
- Bom. - iniciou Florbela como numa assembléia - Já que estamos todos reunidos aqui, eu tenho uma surpresa. - Tirou da bolsa um chumaço de cartas, que logos eles reconheceram - Eu trouxe todas as cartas que vocês nos enviaram, nos últimos 15 anos. Para acabarmos de vez com a maldição do clube B613 sobre nós. Eu proponho que leiamos todas as cartas e as queimemos.
Todos riram, Fernando protestou
- Ah não, não vamos queimar. É a única lembrança que temos de quando Vladmir era feliz.
Vladmir fingiu que não se importava.
Virginia correu para dentro da casa e voltou com as cartas que Florbela tinha enviado. Fernando tinha enviado apenas uma carta durante todos aqueles anos.
- Vai, vamos lá, eu estou de acordo. Quem sabe isso faz o Vladmir mudar de vida.
Sem demora Florbela passou a ler uma carta que Vladmir e Virginia tinham enviado. Nessa época Vladmir tinha 12 anos de idade, Florbela 10, Virgínia 9 e Fernando 8.

Saúva - 15 de Fevereiro de 2003.

Olá primos. Aqui quem escreve é Vladmir e Virginia. Antes de mais nada, queremos dizer que foi o máximo passar as férias com vocês. Vocês são demais. Adoramos vocês. Desculpa pela demora em escrever, é que começaram as aulas, e ficou tudo corrido. Mas já fizemos projetos para o B613. Nossa mãe perguntou o que significa B613, mas não contamos. Espero que vocês não contem pra ninguém também.
Então, quanto aos planos pro nosso grupo. Fizemos um cofrinho, e estamos ajuntando dinheiro, pra poder pagar as roupas e o cenário que iremos usar nas nossas peças. Não seria legal?
A Virginia está fazendo aulas de pintura na prefeitura. Então na próxima peça ela pode desenhar as roupas e o cenário também. O Vladmir tem escrito as peças. Ele escreveu uma sobre quatro irmãos que se metem em um monte de aventuras. E a Flô, podia inventar umas músicas. Daí a gente grava e poe na peça.
Fala pro Fernando que ele vai ter que começar a participar mais das peças. E pra ele parar de jogar bola e soltar pipa o dia inteiro e escrever cartas também. Porque sabemos que a Flô escreve sozinha.
Nossos pais comentaram de novo que talvez a gente mude pra Lavapé!!! Não seria legal se a gente morasse perto!!! A gente poderia se ver todos os dias e poderemos fazer um monte de coisas para o nosso clube.
No carnaval acho que não poderemos ir aí. Meu pai está cuidando do vô Ernesto. Ele está ficando meio caduco. Essa semana não sabia quem era a Virginia. Ele está começando a andar meio duro, e quase não mexe os dedos.
O Vladmir teve mais uma idéia pro grupo. Que tal se a gente tivesse um versículo oficial do clube B613? Que tal esse.
"Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece." - Eclesiastes 1 - 4.
Se tiverem qualquer sugestão podem mandar.
Flô. Ficamos sabendo que um menino da igreja e um da escola estão te paquerando. Porque você não deu bola pra eles?
Quanto às respostas das perguntas. Nós também só queremos ser felizes. O Fernando é o único de nós quatro que deseja ser jogador de futebol.
Bom priminhos. Vamos ficando por aqui. Beijos e Abraços a todos. Amamos vocês.
Em seguida Florbela aproximou a carta das chamas. Todos ficaram em silêncio enquanto a carta queimava. Silêncio que foi interrompido apenas por Fernando.
- Versículo oficial hein senhor Ateu

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