Corrida na Paulista



Começou como uma brincadeira boba. Ver quem percorria toda a Av. Paulista de bicicleta mais rápido.  Os cinco se juntavam toda noite às 23 horas na Praça Oswaldo Cruz  em frente ao shopping pátio paulista, cada um com sua bicicleta cronometrando o tempo. Eles tinham que partir dessa mesma esquina pela mão que vai até a consolação, passando pela praça do ciclista e retornando no sentido inverso até o ponto de partida e para garantir que fizeram todo o percurso o participante tinha que tirar uma foto da estátua do Francisco de Miranda no retorno.
Johny é o atual campeão, detendo o recorde de volta mais rápida com 16 minutos e 40 segundos, sua média é 18 minutos e 33 segundos, seguido de Jorjão que já fez em 18 minutos e 10 segundos, tendo 19 minutos e 51 segundos de média, e por último Zé, volta mais rápida 21 minutos e 07 segundos, média 22 minutos e 47 segundos.
Hoje o Johny fez em 18 minutos e 50 segundos, e o Jorjão 19 minutos e 30 segundos, falta apenas o Zé. Ele já está montado em sua bicicleta, olha para a rua e vê o sinal fechar, coloca os fones de ouvido e no celular escolhe Dies Iraes do Réquiem em D menor do Mozart, o semáforo fica verde e ele empurra o pedal pra baixo com toda força, inicia o cronômetro e segue, a primeira quadra é a mais difícil, pois você tem que fazer toda a força para sair do repouso, e não há nenhum torque no sistema, um quarteirão grande pra pegar aceleração.
José Luís tenta se concentrar unicamente na corrida, mas a forma com que Jorjão disse “vai lá Zé” denotou um tom pejorativo, como se seu nome fosse uma ofensa, mas é só bobeira do Jorjão, ele faz isso pra desestabilizar mesmo.
O sinal do cruzamento com a Rua Teixeira da Silva está verde, isso significa que ele ganhou alguns segundos, olha no cronômetro: 23 segundos, é um bom tempo, era isso, ele bateria o recorde do Johny e mostraria pra todo mundo que sua vida começaria a mudar.
Zé tinha acabado de alugar uma kitnet perto do trabalho no centro, antes disso tinha morado numa pensão em Guainazes desde que saíra da casa dos seus pais em Ribeirão Preto quando passou num Concurso Público da Caixa Econômica Federal.
O semáforo da Carlos Sampaio está vermelho, perdeu seis segundos, ele ainda pode recompensa nos próximos, Jose Luiz tem que se manter otimista, focado.
E se ele perder o emprego? E se sua chefe o demitir teria como pagar o aluguel? Talvez tivesse que voltar pra Ribeirão Preto, pra casa dos seus pais aos trinta anos. O quarteirão é grande, não tem muitos pedestres, está indo bem, se continuar dando tudo de si talvez pegue o cruzamento da Avenida Brigadeiro Luís Antônio antes de fechar de novo. Talvez ela não o demita, foi uma bobeira qualquer, ele é concursado, deve ser uma burocracia muito grande demitir alguém, não vai valer a perna.
O cruzamento está fechado de novo, “quando judex est venturus,  cuncta stricte discussurus!” toca no ouvido, ele calcula pela música 50 segundos, olha no cronômetro 52 segundos, não é um tempo ruim, desacelerou um pouco e conseguiu cruzar no vermelho.
E se ela o demitisse? Talvez ele conseguisse outro emprego, talvez estivesse mesmo na hora de sair de lá, buscar novos ares. Seria um sinal do destino? Ele ganharia a corrida, mudaria de emprego, começaria uma fase nova na vida e em breve se mudaria para um apartamento maior. A vitrine do Reserva Cultural tem uma estampa enorme do filme “Amor”.
Zé estava na caixa havia cinco anos já, os aumentos que ganhou foram poucos, mas já ganhava um pouco melhor que alguns dos seus amigos que ficaram em Ribeirão Preto.
De longe vai acompanhando o próximo semáforo que ainda não mudou pra verde, vai mudar pouco antes dele passar.
Zé conheceu Jorjão no trabalho, Jorjão passou no mesmo concurso que ele, só que uma posição acima, ele deve ter acertado uma questão mais apenas, algo bem idiota pra fazê-lo se sentir melhor. Johny é o primo dele, loiro, alto, atlético, analista de sistemas em uma empresa de grande porte (atravessou tranquilamente a Alameda Campinas), devia ganhar o dobro do seu salário, o que também não significava nada porque seus pais tinham pagado toda a sua faculdade de Engenharia no Mackenzie enquanto Zé entrou na Universidade Anhanguera pelo bolsa escola.
Na Rua Pamplona um fio de esperança verde se torna vermelho no último segundo, serão 15 segundos de espera, "Dies irae, dies illa solvet saeclum in favilla: teste David cum Sibylla", talvez a música fosse o problema, já estava ficando enjoativa, havia um mês que estava ouvindo apenas ela enquanto pedala, são em média 15 vezes seguidas em loop.
Zé nunca esteve no mercado de trabalho de fato, na sua cidade natal tinha trabalhado apenas no comércio para pagar os estudos, em São Paulo nunca precisara enviar currículos e fazer entrevistas, talvez fosse mais fácil do que imaginava, talvez mais difícil, e do jeito que as coisas iam parecia ser mais difícil.
Sua vida na cidade não era nada fácil (Av Nove de Julho fechada também), magro, branquelo, com sotaque caipira, pouco mais da metade do salário era usada pra pagar o aluguel, o restante para arcar com os gastos e saídas ocasionais, raramente as mulheres o achavam interessante por isso não havia namorado ainda, não tinha dinheiro nem companhia, talvez fosse por isso que começou a ficar obstinado por Joana sua chefe, uma mulher grande, quarentona, solteira, trabalhava naquela mesma agência há 20 anos, era a gerente das contas mais importantes, ganhava relativamente bem e não era feia. Depois de cinco anos trabalhando juntos adquiriram um pouco mais liberdade um com o outro, mas nada que fugisse do convívio profissional.
Farol vermelho na Rua do Masp é muito azar. É a terceira vez que a música toca, o cronômetro aponta 4 minutos, José Luis está se distraindo. O pior que podia lhe acontecer era assumir de vez seu fracasso na cidade grande e voltar para a casa dos pais dizendo que prefere o interior, afinal, não seria tão ruim assim, não seria vergonhoso, talvez o problema fosse mesmo a cidade e não ele, não era ele que não conseguia vencer, era a cidade que não permitia.
O Semáforo aberto na Rua Peixoto Gomide. O que ele tinha feito afinal? Ela disse: “Me leva esses documentos pra Juliana” e ele respondeu “Te levo pro motel apenas”. Era a primeira vez que fazia aquilo, nunca tinha dito nada que pudesse ser interpretado com intensão sexual, nem mesmo por brincadeira. Não seria o suficiente pra demiti-lo. Alameda Ministro Rocha Azevedo livre também. Talvez devesse comprar chocolates pra ela, uma caixa de bombom e um pedido de desculpas honesto. Talvez ela passasse a gostar dele dessa forma, talvez o começo de uma história, todos os seus problemas seriam resolvidos, ele não ficaria mais sozinho e com a renda dos dois juntos poderiam viver bem. Rua Frei Caneca lotada. Talvez esse gesto fosse interpretado como uma confissão de que era um tarado de fato e tentava comprar seu silencio com chocolates. Desvia dos pedestres, atravessa devagar, esse pedaço é sempre o mais movimentado, ele freia e pedala, na frente do Shopping Center 3 já tem uma molecada então as vezes é preciso colocar o pé no chão para manter o equilíbrio, o farol da Augusta está fechado, mas os carros estão passando devagar, dá pra atravessar pelo meio deles, faltam apenas duas quadras, já está começando a ficar cansado, precisa renovar o fôlego para a volta, percorre a quadra um pouco mais devagar pra dar tempo de abrir de novo o farol da Haddock Lobo, faz o mesmo com a Bela Cintra, tira o celular que está preso junto ao elástico da cueca e se prepara para tirar uma foto. Tem gente na frente, muda o aparelho de mão pra fazer outra tentativa na volta, ultrapassa um casal, contorna a estátua, e com o braço esquerdo consegue tirar a foto. Olha no cronômetro, 9 minutos, a música acaba de recomeçar pela sétima vez, se a volta for melhor que a ida ainda há esperanças. A volta é sempre pior porque Zé está mais cansando, porém se tiver menos obstáculos ele pode conseguir.
Então era isso, eram essas todas as opções da sua vida: Voltar para Ribeirão Preto, Mudar de emprego, namorar Joana ou ficar tudo do jeito que estava, que no momento era a mais temíveis das opções.
Zé consegue ver os dois próximos semáforos da volta, pelas suas contas conseguirá pegar os dois verdes. Ele se apoia no guidão, inclina a cabeça pra frente e pedala o mais forte que consegue, esse lado da Paulista está mais vazio hoje, o suor escorre pela testa, a respiração fica ofegante, mas ele consegue, deve ter feito essas duas quadras em tempo recorde. Tinha chegado o momento da decisão final, não olharia mais para o cronômetro, correria tanto quanto pudesse até o seu destino, se ganhasse se demitiria no dia seguinte com o queixo erguido, com o dinheiro da rescisão poderia pagar mais um mês de aluguel e teria esse tempo pra procurar um novo emprego. Se perdesse iria comprar uma caixa de bombons para Joana e pediria desculpa de forma descontraída.
A Augusta está cheia de carros novamente, “cuncta stricte, cuncta stricte, stricte discussurus!”, decidiu também que escolheria outra música, não importa o que acontecesse, deixaria de mistificar a corrida, nada de músicas estimulantes e pensamentos intensos, seria racional a partir de agora, teria o pé no chão e seria isso que garantiria a ele o sucesso.  Ainda faltavam 12 cruzamentos, era óbvio que alguns deles estariam vermelhos e outros verdes, não havia o que fazer, tudo era apenas o resultado da coincidências de vários eventos arbitrários, ele não tinha poder nenhum sobre isso, exceto fazer o maior número de tentativas e ficar aguardando aquela que teria por acaso os eventos mais favoráveis a sua situação.
José Luis estava fazendo tudo o que podia e não tinha porque se envergonhar disso, a estratégia mais digna era essa, continuar dando o melhor de si enquanto esperava a oportunidade chegar. Faltavam apenas duas quadras, José se sentiu tentando a olhar para o cronômetro, mas não o fez, saberia o resultado quando chegasse, era inútil se antecipar. Entusiasmado com as duas últimas luzes verdes Zé gastou suas últimas forças naquelas pedaladas, não sabia se já havia perdido ou não, mas não importava, não tirava o olho de seu objetivo. 
Do outro lado da rua, Johny olhava para ele de olhos arregalados, era isso, ele venceria, só isso explicaria aquela expressão de espanto, quando de repente um conversível o atingiu de cheio. Quem dirigia era uma mulher, não estava muito rápida, mas foi o suficiente pra jogar José Luis para o canto da pista fazendo com ele rolasse uns dois metros, ele colocou a mão nas costas e fazia uma careta horrível demonstrando a dor lancinante. A Dona saiu logo em socorro, obteve ajuda de um rapaz que o carregou para o banco de trás do veículo. Ele ainda estava meio atordoado, tanto que num gesto automático passou a procurar uma aliança na mão dela e não a encontrou, foi nesse momento que ele teve certeza, era ela, a resolução dos seus problemas entrando em cena de forma excepcional.
Zé estava errado, a única coisa que ele ganhou nesse acidente foram 3 costelas quebradas, uma indenização e o afastamento do trabalho recebendo o seguro. Por pena ou pelo tempo que se passou Joana se esqueceu do ocorrido, ou talvez nunca tivesse o notado fato. João ficou em casa 6 meses estudando enquanto se recuperava para correr de novo, na primeira semana quando voltou ao trabalho Jorjão já o intimou, ele aceitou, mas novamente não ganhou.
No cronômetro ficou gravado 18 minutos e 31 segundos.