Ela


Os carros passam em alta velocidade deslocando o ar frio pelo corpo dela, andando na calçada de cabeça baixa se abraçando para se proteger do vento, parecia começar a garoar, era o caos que se aproximava.
"Que você acha disso hein Murilo? Que acha dessa merda toda? Parece bastante construtivo pra você? Parece que alguma coisa está acontecendo na sua vida agora?"
Um carro passava buzinando, ela odiava, odiava aquele som alto, sentia sua pressão baixar, se sentia violentada pelo barulho estrondoso daquela máquina.
De repente estava tudo escuro, tinha anoitecido e ela não tinha reparado, continuava andando firme, tentava se deliciar com o vento no rosto mas os cabelos ficavam batendo constantemente nos olhos e ela começou a sentir que talvez não estivesse em sintonia com o universo.
Ela virou a esquina , tocava uma música dentro dela, ela não sabia exatamente qual era, não entendia de música, mas eram violinos, vários deles, se transpondo um por cima do outro, a música parecia crescer, a deixava cada vez mais emocionada, ela esperava pelo climax ao mesmo tempo que o postergava.
Deixou de sentir frio, não sabia se era pelo tanto que tinha andado ou porque ventava menos naquela nova avenida.
"Está vendo que não importa? A gente já sabe onde isso vai dar. Ela é incrível e eu já a amo, mas ninguém vai entender, porque eu nunca vou conseguir explicar os motivos, nunca vou conseguir deixar transparecer todas as sutilezas da personalidade dela, ninguém nunca vai conseguir imagina-la como eu imagino, a pele do rosto morena e fina colada aos ossos, olhos grandes e confusos, os cabelos pretos cumpridos e mal cortados, nunca ninguém vai conseguir entender porque ela é tão especial, porque ele é diferente das outras, porque ela não se preocupa com o que todas outras se preocupam".
Começa a garoar, ela aperta o passo, o coração acelera, parecia um sinal de que daria tudo errado, ela precisava se manter forte, faltava apenas alguns quilômetros, ela aguentaria, a sandália aguentaria.
"Com o que ela se preocupa então? Se ela não se preocupa com o mesmo que as outras? Achei que ela se preocupasse em chegar no hotel apenas."
Suas pernas começam a doer, a rua está completamente escura, ela tem medo, começa a pensar em outras saídas, pedir ajuda, o telefone de alguém emprestado para fazer uma ligação, o dinheiro para pegar algum ônibus, mas não queria, não queria se render, não podia agir como uma pedinte, ela tinha que manter a dignidade e resolver aquela situação sozinha.
"Está vendo? Ela não se preocupa apenas em chegar no hotel, ela se preocupa com o que é verdadeiro, ela quer mudar-se, quer se tornar mais forte, quer transformar-se.".
Ela começa a correr a avenida toda, tenta fazer de forma elegante, não como quem foge, mas como quem pratica um esporte, ela corre uma quadra inteira, se cansa mas não para, começa a sentir a respiração ofegar e finalmente percebe que está em sintonia com tudo, que ela é livre e que consegue se salvar do seu próprio jeito, mesmo que jamais a entendam. Ela chega no alto da avenida então pode reconhecer um prédio alto e luminoso que ficava ao lado do seu, estava longe ainda, talvez ainda faltasse mais da metade do percurso, ela cambaleou e se apoiou no portão de uma casa, quis chorar mas ainda estava ofegando demais da corrida.
"Vai atender a porta!"
Os violinos cresciam dentro dela.
Será que estava mesmo em sintonia com o universo naquele momento? Será que realmente existia tal coisa, talvez ela só fosse perdida e ferrada.
"Ah, você não fez isso né."
Ela olha para os lados, olha para o céu e começa a se perguntar se devia mesmo voltar ao hotel, se devia voltar a qualquer coisa, se devia voltar a sua vida, o que significava tudo aquilo afinal? Que diferença faria?
"É claro que eu fiz."
E de repente ela desiste de tentar ter o controle de tudo, ela desiste de tentar lutar contra tudo para que ela seja uma verdadeira vencedora, ela quer abraçar o caos.
"Por que você faria isso?"
Ela fecha os olhos, tenta sentir o perfume na brisa, tenta sentir o ar esfriando a pele, ela se entrega.
"Que diferença faz? Eu preciso dela e talvez ela precise de mim"
Ela repassa toda a sua vida na cabeça, desde a infância, e se lembra sempre de se sentir sozinha, de pensar sozinha, de se interessar sozinha, de ficar curiosa sozinha, de entrar em crise sozinha.
"Você não pode escrever alguém para te amar"
Ela vira de costas, apoia a cabeça no portão, abaixa os olhos, encara o chão da calçada, expira, fecha os olhos, inspira, levanta a cabeça, abre os olhos e vê uma campainha.
"Ding-Dong"