Através da Janela


A primeira vez que ele reparou nela foi por mero acaso. Ela estava nua deitada no sofá, do outro lado da janela. Sem muito refletir ele se pôs logo a tirar a roupa também, porém, não chegou a realizar nenhum outro movimento, pois ela se levantou, desligou a televisão, vestiu-se e foi arranjar suas coisas.
Eram dez horas, em ponto. Ela não colocaria a roupa para voltar a tirar, mesmo porque já estava de pijamas, e provavelmente em breve iria dormir, mas por via das dúvidas, ele vestiu o samba-canção e hora ou outra conferia a situação da vizinha.
Ele mora no 93 e ela no 5b do outro lado da rua. Pela janela ele podia ver quase tudo, um cômodo grande que abrigava uma sala e cozinha. Infelizmente o quarto ficava na outra fachada do prédio, limitando-o a imaginação.
Por estar quatro andares acima dela, calculou que pela altura de sua janela ela poderia ver pouco mais que o teto, nada que intimidasse sua própria curiosidade.
No dia seguinte assim que chegou do trabalho se colocou a vigia-la, viu-a entra pela porta, largar sua bolsa em cima de uma cadeira, estender o casaco no encosto, atirar os sapatos pela sala e entrar para o quarto, só retornou 40 minutos depois, de roupão de banho e uma toalha enrolada na cabeça.
Era o momento que aguardava, o momento que sonhou o dia todo. Ela se deita no sofá, retira a toalha da cabeça, abre o roupão, o atira sobre o braço do sofá, mas para sua surpresa, ela está com uma camiseta velha e um shortinho.
Como se tivesse sido traído, ele esmurra o braço do sofá frustrado. Começa a pensar que ela deve tê-lo visto, que ele tinha sido um idiota, não foi discreto o suficiente ao contempla-la e como punição jamais a veria nua novamente.
Sem tirar os olhos da televisão, ela toma o roupão novamente e se acasula nele, fazendo-o se dar conta que diferente do dia anterior, hoje estava frio, e que a culpa não era dele, e sim desse clima maluco nessa cidade que persiste em não se manter constante.
Então era isso, esperar por um dia quente, para que ela se deleitasse no conforto do seu sofá aproveitando a luxuria da própria nudez.
Acontece que o inverno havia acabado de começar, então restava a ele apenas torcer para um outro dia atípico de calor.
Conforme os dias passavam o desejo dele por ela se modificava. Na primeira semana a vigiou com olhos atentos, com a certeza de que se ela ficasse nua na sala por mais de 5 minutos ele com certeza a veria. Deixou de ir ao bar com os amigos, pois não queria chegar atrasado em casa. Passou a decorar cada detalhe de sua rotina, a forma como gratinava os legumes no tacho quente, os 20 minutos poupados no banho quando não lavava o cabelo as terças e quintas, a forma com que dançava Shakira quando estava de bom humor.
Foi num dia quando a viu desligar o telefone chorando que começou a se sentir culpado por toda a monitoração, se encheu de vergonha e decidiu que não iria mais olhar pela janela dela.
Na segunda-feira seguinte, chegando em casa tentou se distrair no vídeo-game, mas já tinha enjoado dos jogos, na televisão não havia nada que pudesse prender a sua atenção, se rendeu à internet mas nada o atraia, o tempo parecia não passar, e sua ansiedade o consumia. Como um viciado abstêmio, ele se forçava a não chegar perto da janela, se policiava para não espiona-la. Olhou para o relógio e ainda eram nove horas da noite, foi quando o desespero tomou conta.
E se hoje tivesse sido esse dia? Finalmente o dia que ela se entregou a sua completa naturalidade...
Correu para a janela procurando-a e a encontrou de pijamas preparando o jantar. Pôs-se a procurar qualquer vestígio de sua nudez recente. Será que ela tinha se rendido à sua luxuria? Teria acabado de colocar o pijama ou já saiu do banho com ele? O clima estava ameno, portanto qualquer uma das duas opções era válida.
Decidiu-se então que não deixaria de espionar, mas que passaria a fazê-lo de uma maneira bem mais cavalheiresca.
Deu-se então a mudança. Moveu a pequenina mesa de jantar para próximo da janela. Mudou a disposição do sofá e da televisão, ajeitou todos os móveis de forma que permitisse conferir a sua vizinha ocasionalmente.
No dia seguinte, quando chegou do trabalho, não assumiu sua posição de vigilância, esperou o relógio marcar 19:20 que era o seu horário de chegada, e juntamente com ela, foi logo tomar um banho.
Deitou-se no sofá, sintonizou o canal da novela das oito, e se empenhou em acompanhar a trama. A cada cena engraçada ou tocante, espreitava pela janela para ver sua reação. Ele estava correto, já a conhecia, estava certo ao julgar que assistia a novela, e o sorriso dela em respostas às situações engraçadas, o olhar petrificado no momento de tensão, era exatamente o que ele esperava, da forma precisa que ele imaginava.
Em seguida iam os dois preparar o jantar, ela legumes refogados, ele macarrão instantâneo, sentava-se a mesa colado à janela e mastigavam em silêncio juntos.
Alguns trabalhos a fazer, alguma distração no fim da noite, e quando ela exprimia o primeiro bocejo, ele a desejava boa noite e ia pra cama.
Apesar da distância eles eram um casal, e como qualquer casal, bastou pouco mais de dois meses para cair na rotina, ele estava atento à ela, mas já não estava tão obstinado, e ela continuava agindo como se ele nem sequer existisse.
Tendo abandonado a vigília persistente, se redimiu com os velhos costumes, na quinta-feira depois de um dia desgastante de trabalho, foi beber algumas cervejas com os amigos, chegou em casa por volta das oito e meia, atirou a mochila, tênis, meia e camiseta pela sala, e antes de cair no sofá, viu de relance aquela figura escultural no apartamento do outro lado da rua.
Ficou estático, descrente do que seus olhos viam. Ela estava completamente nua, deitada no sofá com suas pernas esticadas, apoiadas uma sobra a outra. A força da gravidade agindo sobre seus seios deixava claro a firmeza e o formato dos mesmos.
Sem pensar em nada, numa atitude abruptamente idiota, retirou toda a roupa e olhou fixo pra ela, esperando ver sua reação. Mas não teve nenhuma, ela nem notou que ele estava ali. E ele permaneceu um bom tempo parado, sem saber ao certo o que fazer, envergonhado e grato ao mesmo tempo, por ela não o perceber.
A única pessoa que o percebeu foi Dona Júlia do 11b que muito excitada o assistia através dos binóculos do seu falecido marido, Seu Damião, observador de pássaros.