Metrô


Alguns o encaravam, outros tentavam disfarçar, outros ignorar. O metrô estava lotado, o ar estava quente, e ele no auge do seus 43 anos chorava feito uma criança, um choro alto, com soluços, lagrimas escorrendo junto com o nariz. Por um momento ficou chorando até que aquele sentimento se transfigurasse dentro dele, se transformou numa resignação, chorava como se lamentasse por ter chorado, e pouco a pouco cada vez mais racional e menos emotivo acalmou-se com certo orgulho de sua coragem de ceder ä um sentimento tão genuíno.
Mas por que estava chorando mesmo? Não fazia a menor ideia. Estava sentado lendo uma revista dessas de consultório de dentista, um artigo tendencioso qualquer sobre alguma coisa de pouca importância, o vagão estava silencioso, as pessoas evitavam se encarar, um senhor ao seu lado cobria os olhos com a mão como se dormisse, e na sua frente um jovem lendo de forma bastante determinada “Núpcias” do Camus, ele virava as páginas com pressa, fazia anotações, era tão obstinado que o lembrava ele mesmo na faculdade, e no momento em que se reconheceu naquela figura esguia e juvenil, quase de forma instantânea deixou de se reconhecer a si mesmo, como se a lembrança dos seus planos de jovem tivessem despertado seu ego juvenil, lembrou-se dos seus ideiais sempre muito radicais e da promessa que fizera a si mesmo que jamais aceitaria um estilo de vida convencional, sua vida deveria ser sempre a exploração mais intensa de todas as experiências, e foi aí que a catarse começou e com ela o choro.
A próxima estação é anunciada, as portas se abrem e o rapaz sai, aquilo o tomou nosso heroi de surpresa, como se esperasse que ele não fosse embora enquanto seus assuntos não tivessem sido resolvidos, ficou estático sem saber o que fazer, um frio percorreu a espinha, teve vontade de chorar novamente mas quando os apitos soaram informando que as portas se fechariam, ele saltou do assento de sopetão e sem pensar atravessou as portas que se fechavam desajeitadamente sobre ele. Desvencilhando-se na estação passou a procurar o garoto que se perdia na multidão. Eles parecem penguins, sussurrou para sí mesmo, as pessoas se enfileiravam para utilizar a escada rolante, davam pequenos passos fazendo seus corpos se inclinarem de forma engraçada da esquerda para a direita, estava confuso e eufórico, seu universo parecia ter ruido mas isso despertava nele um entusiasmo, como que desafiado pela reviravolta no enredo, teve a impressão de que começaria uma vida nova, tudo seria novo de novo. Lá estava o rapaz com a sua cabeleira bagunçada, com os fones no ouvido avançava ansiosamente pra saída. De repente tinha se redescoberto, como se tivesse acordado de um sonho, um protragonista mais interessante para a sua prórpia estória, era também um maníaco que segue as pessoas por aí sem motivo algum, até a Elisa estranharia a atitude do marido se soubesse. Seu verdadeiro eu estava de volta, com seus planos individuais, sua coragem para se meter em situações incomuns, seu interesse romântico quase fantasioso sobre esses acontecimentos. Se precipitou pela escada saltando os degraus de dois em dois com medo de perder de vista o seu clone do passado, emergiou da estação, ganhou a calçada e pode ver seu ectoplasma nostálgico parado próximo ao meio fio, ele devia estar esperando alguma carona, pensou consigo mesmo. Era isso, sua aventura tinha acabado, o rapaz iria embora e ele não poderia segui-lo novamente, mais uma vez teve vontade de chorar, deixou-se pensando naquilo por alguns minutos, que significava aquilo tudo afinal? Será que tinha mesmo se deixado acomodar e traído o seu próprio ideal ou apenas tinha amadurecido e tirado o melhor da sua vida? Tinha de ser a segunda opção pois não podia abandonar tudo assim do nada, o que diria a Elisa? Se sentia traído, como se tivesse prometido uma vida nova, não que quisesse abandonar seus filhos e sua esposa, mas queria sim uma nova vida, uma vida egoísta, uma vida para si, queria poder se divorciar da maneira mais agradável possível,e começar novos planos, viagens sozinho, relacionamentos, experiências. Elisa não aceitaria, claro, o culparia por abandona-la e o faria se sentir culpado, enfim, a nova vida que percorreu de súbito sua imaginação tinha se desfeito, o garoto era essa nova vida, e da mesma forma que apareceu sumiria.
Quando já estava recobrando o juízo no que acreditava de fato viu um carro preto se aproximando e a surpresa foi tanta que começou a tossir como se tivesse engasgado com o fôlego que tinha tomado. Era Elisa dentro do carro e não o tinha visto, seu outro eu entrou no carro, beijou-a nos lábios e partiram, ele ficou ali, feito uma estátua, tentando compreender o que tinha acontecido de fato. Será que o garoto de fato era ele? Será que Elisa sabia que era ele ou o confundiu pela semelhança de suas almas? Será que na verdade não teria ele entrado no carro e estivesse ficando maluco. Não, não significava nada disso, significava que poderia ser livre, significa que podia dar início a sua nova vida, podia deixar Elisa com um bom motivo, com o que tinha acontecido bastava tratar tudo da forma mais cortês possível para que sua vida nova chegasse num piscar de olhos. Passou o dia sorrindo, faltou ao trabalho, ficou dando voltas na cidade, e quando chegou em casa parecia mais feliz do que nunca, jantaram todos reunidos na mesa e em seguidas seus filhos partiram para a faculdade, Elisa foi tomar banho e ele ficou apreciando aquela cena toda como um expectador. Tomou coragem para dar início ao seu plano, foi encontrar Elisa no quarto enrolada em toalhas, tudo parecia diferente, ele parecia diferente, e ao mesmo tempo que seu cérebro remoia todas as implicações da sua nova vida, enquanto imaginava o futuro e planejava o término de tudo, suas mãos tocavam os ombros de Elisa, e em poucos instantes os dois estavam transando na cama de forma tão satisfatória que não se recordavam quando havia sido a última vez. Ela poderia estar fazendo tudo aquilo por culpa mas não importava, ele poderia contar a ela agora, poderia contar quando quisesse, ou talvez pudesse passar a vida toda sem contar, não fazia a menor diferença. Ele estava livre agora.