O homem por trás da mochila


Era um ambiente tranquilo que Jorge gostava de frequentar nos fins de semana. Um "boteco" numa travessa da avenida principal. Aos domingos tocava blues. Jorge gostava de blues, achava que combinava com a sua melancolia, passou a ter orgulho disso depois de ter lido "O sol também se levanta", sabia que tinha que parar de ler Hemingway, mas gostava porque o risco de morrer como ele era o que lhe ocorria de mais emocionante nesses tempos. Gostava de ficar debruçado no balcão com um copo de Whisky dividido por doses de tequila cronometradas.
Conhecia a garçonete, na verdade conhecer era um termo muito profundo pra Jorge nos últimos tempos, realmente ele só sabia o nome dela, Suzana, mas gostava de ser chamada de Suzie. Uma morena de estatura média, magra, mas com grandes e firmes peitos onde se apoiavam as mechas cacheadas em escala de marrom dos seus cabelos que chegavam até suas costas.
- Droga, meu cabelo já está cheirando cigarro. - Disse ao acaso, olhando firme para Jorge e cheirando as pontas dos cabelos.
- Por que você não corta? - Disse Jorge com um sorriso simpático.
- Porque cortar não tira o cheiro! - Replicou com um sorriso maldoso
Jorge não gostava quando as conversas eram mais dos que expressões sem valor ditas ao acaso, qualquer intenção alheia lhe incomodava.
- Mas não vai deixar de ser bonita e vai ter menos trabalho pra lavar - Argumentou com um tom diplomático.
Suzana franziu o cenho, estranhava a atitude dele em se preocupar com a praticidade dela em lavar os cabelos, e o fato desse argumento estar seguido de um elogio só o torna mais incomum. Jorge ficou satisfeito por ter atingido mas um fim de conversa despretensiosa.
Essas foram as únicas palavras que disse toda a noite.
Já em casa sua mochila que passou todo o fim de semana no canto da sala olhava-o estupefata, dividida entre os sentimentos de raiva e pena pelo aparência esgotada que arrastara porta a dentro.
Diferentes dos demais funcionários do setor de "análise de crédito", Jorge preferia carregar sua mochila ao invés de uma pasta. Resultado de uma crise compulsiva pra provar a sí mesmo que a tarefa estafante que realizava no trabalho não diminuíra seu aspecto juvenil. Sua mochila se orgulhava do fato de lhe proporcionar tal segurança, mas mesmo assim sentia ciumes das que via sendo carregadas pelas duas alsas nos ombros como uma criança brincando com seu pai, e não por um ombro só, como ela, mas Jorge achava que isso lhe fazia parecer "descolado".
Há um ônibus que passa em frente a empresa onde Jorge trabalha e que cujo itinerário o leva direto a sua casa, mas Jorge prefere andar 10 quadras até o centro com a desculpa que o percurso do ônibus que passa por lá lhe custa 15 minutos menos que o outro, o que sabe que é mentira, pois esse tempo é pouco menos que o tempo que leva pra chegar lá, na verdade faz isso na esperança de que aconteça algo interessante durante o caminho: conhça alguém, sofra um acidente, arranje uma briga, pegue de volta a bolsa roubada de alguma senhora de cabelos grisalhos, pele flacidamente lisa e sardas simpáticas. Finalmente algo lhe aconteceu, conheceu Angela, assim sem acento mesmo, como futuramente Jorge a chamaria só pra provoca-la no namoro que acabou surgindo. Jorge se achava sortudo por ter sido socorrido por ela no acidente com a moto, gerando fortes sentimentos recíprocos, resultados de situações que só uma perna fraturada e um romantismo moderno é capaz de provocar. E como qualquer sentimento regado a hemoglobina, tendeu ao amasiamento, filhos, casamento.
E foi isso que lhe suscedeu, uma vida drasticamente mudada. Macarrões familiares ao invés do buteco, e a mochila finalmente perdeu seu lugar para a pasta.
Fico tentando imaginar quais pensamentos teve a mochila naquela manhã. Lotada de roupas, mas uma vez confusa se se alegrava por estar com o Jorge de novo ou se entristecia pelo ocorrido. Jorge nunca contou pra ninguém os reais motivos da separação, as vezes se questionava se era ele mesmo que carregava a mochila, pois se sentia como um grande saco escuro cheio de amarguras sendo arrastado diariamente por esse ser estranho que chamamos de vida