Ônibus.


Seus peitos sacolejavam junto com as sacolas, ela se segurava na janela tentando tomar o máximo de ar na face. Aquela viagem terrível e cansativa, ela só conseguiria suportar se se concentrasse em enxergar as coisas com uma visão totalmente diferente.
Fechar os olhos, sentir o vento no rosto, a fronte ficando fria, a ansiedade crescendo dentro de si, queria permanecer feito uma estátua até o ônibus para no seu ponto, ela desceria, sem dizer nenhuma palavra, sem colocar qualquer expressão na face, sem nem pensar no que estava fazendo, andaria numa linha reta até a sua casa, entraria debaixo do chuveiro, e só aí iria pensar em si novamente, iria pensar na sua vida, iria pensar no mundo ao seu redor.
O ônibus se apertava ainda mais, o ar esquentava, ela podia sentir o calor emanado das dezenas de corpos ali dentro. Não podia ceder, não podia se deixar tornar insensível, seus irmãos ganhavam menos que ela, um salário mínimo, e já tinham comprado carro, mas ela não, já tinha se decidido quando viu as coisas começarem a dar certo para ela que não usaria suas poucas vantagens para não ter que viver uma situação que seus companheiros enfrentavam todo dia, ainda por cima se sentia culpada, sua vizinha pegava três ônibus para o trabalho, vendedora na cidade vizinha, ficava em pé o dia inteiro, já ela por um misto de esforço e sorte conseguira um bom emprego no centro da cidade, obteve um pouco de destaque por seu esforço e iniciativa, começou uma faculdade, não era justo com todos os outros, se seu pai não fosse pastor da igreja assembleia na esquina, se tivesse sido preso como o pai da Kelly, talvez as coisas tivessem sido diferentes, ser insensível com qualquer pessoa nesse mundo para ela era como se tivesse s endo insensível consigo mesma num universo paralelo, mesmo pra quem não merecesse esse voto de credibilidade.
Já começava a escurecer e era um alívio por conta do calor. Na rua dois meninos sem camisa, com calças moleton rasgadas e cheias de barro brincavam no meio-fio, se chutavam, rolavam na poça dágua.
Eles são sempre negros - sussurrou sem notar que as palavras saiam de fato da sua boca.
Ela não conseguia explicar pra si tudo aquilo. O preconceito, a pobreza, a violência. Ela se sentia sempre em dívida, ela se sentia culpada por não ser da cor do seu pai, tinha saído branca à sua mãe, e as vezes ficava pensando porque seus primos do lado materno estavam mais bem sucedidos que seus primos paternos. Seria apenas porque eles eram brancos? Sabia que na verdade eram porque tinham feito melhores escolhas, mas era coincidência que seus primos brancos fizeram escolhas melhores que seus primos negros? O tio olavinho era bastante metido, por isso os meninos tiveram que fazer faculdade, se bem que o Lúcio passou na estadual e o Júlio conseguiu bolsa, o Jefferson e o Wesley também poderiam, apesar que eles não estudaram em colégio particular, mas a tia Joyce nunca colocou a Flávia em colégio particular e ela passou na federal, mas não serve como parâmetro pois ela sempre fora muito estudiosa. Enfim, ela não sabia o que dizer, ficava pensando nisso desde que seu primo Wesley foi preso quando tinha se meti do num roubo com uns amigos, tinha usado a sua moto, ela tinha certeza de que ele acabou sendo bode expiatório dessas más influências.Não podia dizer se era porque era negro ou não, se a polícia era racista ou se tivera menos possibilidades, só sabia que os meninos brincando na rua eram negros, e quando ela os via jogando aquela água suja um na cara do outro, imaginando o quanto dela eles engoliam, ela sentia um arrepio, o ônibus se distanciou e ela não fez nada.
Uma senhora muito gorda se aproximou, parecia cansada, suava e bufava, ela olhou para os assentos preferenciais do outro lado do corredor, dois homens o ocupavam, não tão velhos, como que deveria ser então? Era obrigação dela deixar a senhora sentar porque era mais nova ou dos senhores porque eram homens e estavam no assento preferencial? Depois de poucos instantes passados, a culpa a consumia e pouco importava de quem era a obrigação, ela daria o lugar para a senhora se sentar se não se sentiria em dívida com o universo para sempre.
Feito a troca ela acabou ficando em pé, se ancorando num poste de ferro, o calor aumentava e o cansaço também. O ônibus chacoalhava hipnoticamente, e a ansiedade dela aumentava, se sentia um vulcão, começava a pensar em tudo, em tudo que estava errado, nos senhores sentados, culpa deles que ela estava de pé, um ódio do mundo todo lhe consumia, foi quando se lembrou que se sentia uma bomba, e que se algo mais acontecesse explodiria, e foi o que se pôs a fazer.
Encheu os pulmões de ar, fechou os olhos, e num instante, quando pensou no que estava prestes a fazer, quando viu toda a sua situação de um ponto de vista externo, todo aquele sentimento foi tomado por uma grande depressão, o ódio que ela sentia já não fazia mais sentido, nada mais fazia sentido, ela estava cansada de tudo. Então começou a soltar o ar bem devagar, sentindo o vento que saia das suas narinas derretendo tudo ao seu redor, em câmera lenta ela explodia, tendo consciência de cada elétron que se desprendia do seu corpo e rachava no ar liberando uma energia devastadora, como uma pedra que cai na água, a explosão que ela causava abria um círculo cada vez maior na superfície da terra até englobar o mundo todo, e de repente tudo desapareceu.
Quando abriu os olhos se viu na sua cama, sua mãe do lado, seu pai sorrindo tentando anima-la. Ela ficou encarando o teto, sem dizer uma única palavra, como que presa dentro de si mesma. Olhou para sua mãe, pensou em tudo que ela representava, no vínculo que elas tinham, um único resquício de pureza no meio de tudo que ela tinha enfrentado hoje, então sorriu para ela um sorriso profundo, com olhos firmes, e se perguntou se algum dia alguém a entenderia.