Paradigmas


Se você soubesse qual seria o seu fim, se entregaria a ele de bom grado? Esperaria conformado o momento chegar e cumpriria com seu destino?
Hoje estou com 65 anos, moro só. Já não tenho mais família nem amigos e passo os dias esperando.
Pra mim já não é mais possível viver normalmente. Não me cabe mais encarar a vida como os outros, resta-me apenas esperar. Por isso resolvi hoje contar a minha história. A história de como morri pela primeira vez.
Eu tinha 25 anos na época, morava num prédio antigo na Rua Augusta, naqueles onde vivem prostitutas e drogados.
Eu também não era um que se podia chamar de um “bom elemento”, mas o meu minúsculo apartamento era o mais bonito de todos. Móveis bonitos, decoração luxuosa, coisas que eu havia roubado por ai.
Eu sobrevivia disso, da venda de objetos conquistados em pequenos furtos. Não era um assaltante, não era violento, só tinha o medíocre talento para invadir casas e levar objetos sem ser notado. Carregava comigo uma pistola M1911 que havia roubado de um colecionador, porém jamais havia usado.
Minha vida era tranquila, eu evitava confusões, era tão sorrateiro para fugir delas quanto para escapar pela janela do banheiro, até que certo dia passeando pelas redondezas vi um senhor carregando uma sacola de livros e por algum motivo aquilo me chamou a atenção e resolvi segui-lo. Sem ser notado pude descobrir que ele morava num pequeno estúdio na Rua Frei Caneca.
Era uma casa bonita, com grandes janelas que davam para a rua. Subindo numa árvore que tinha na calçada do outro lado da rua pude ver a sala. Era uma sala diferente, não tinha uma televisão, sofá, mesa de centro, apenas grandes estantes cheias de livro. Do meio dela saia um corredor com 3 portas que se dirigia para os fundos. Pude presumir que era um quarto, um banheiro e uma pequena cozinha.
Eu devia ter ficado frustrado considerando que os roubos mais eficientes eram os de eletroeletrônicos e eu não via nenhum, mas por algum motivo tudo aquilo me despertou um enorme interesse.
Voltei a aquele mesmo lugar todos os dias durante o resto da semana. E pelas frestas da cortina pude descobrir um pouco mais daquele lugar.
Além de toda aquela coleção de livros tinha também perto da porta um belíssimo armário com portas de vidro, por onde se podia ver todo um conjunto de porcelana exposto,
Ele passava quase o tempo todo em seu quarto, visitava a sala poucas vezes munido de uma caneta enfiada atrás da orelha e um caderno debaixo do braço, pegava um livro qualquer nas prateleiras e voltava para seus aposentos retornando apenas às 23 horas para apagar as luzes.
Ele nunca olhava para fora, principalmente para a árvore onde eu me acocorava, porém, ao invés de me tranquilizar com a falta de desconfiança daquele senhor, aquilo me deixava mais assustado, como se ele soubesse que eu estava lá, mas preferisse me ignorar.
Porém, assim mesmo eu decidi que iria fazê-lo, eu já havia planejado tudo. Quando ele fosse se deitar eu arrombaria a porta da sala, o armário e levaria as louças.
Eu nunca havia roubado louça antes, então nem sabia ainda para quem venderia. Mas algo me impelia, eu precisava entrar naquela casa, precisava invadir aquele ambiente, mas eu não era um poeta, era um ladrão, por isso roubaria as louças.
Após uma semana de vigília e planejamento eu parti para a minha missão. Vesti-me discretamente e segui para o meu destino.
Suspirei fundo na frente da casa e pulei o portão, deixei-me ficar estático no quintal contemplando tudo aquilo, encostei a cabeça na porta da sala e fiquei parado ouvindo por alguns minutos. Tudo estava em silêncio, mas não era um silêncio comum, não era apenas uma ausência de som, era aquele silêncio que se aprecia, quando se é possível ouvir o sangue correndo dentro das veias, os pensamentos fluindo dentro da mente como uma música suave.
Com minhas ferramentas pude violar a fechadura da porta facilmente. Entrei na sala que estava pouco iluminada pela luz do poste na calçada que atravessava as cortinas e ali fiquei.
Aquele ambiente era ainda mais envolvente do que pude ver pelo lado de fora, os livros se enfileiravam na estante como num santuário, era como se o tempo tivesse parado e meu coração batesse em animação suspensa.
Quando me livrei desse torpor me compeli a cumprir minha tarefa, mas por algum motivo a fechadura do armário não se abria com nenhuma ferramenta que eu possuia.
Por que alguém se dedicaria a fechadura de um armário mas não à fechadura da porta? Novamente tive aquela impressão de que ele já sabia das minhas intenções, aquele sentimento se apoderou de mim como uma onda de frio que percorria o meu corpo todo.
Ele estava brincando comigo, ele estava ciente de que eu iria rouba-lo e mesmo assim não fez nada porque sabia que eu não conseguiria arrombar a fechadura do armário, mas como?
Aquilo fez meu sangue subir às têmporas, um ódio cresceu dentro de mim que me fez quebrar a porta de vidro com um soco, não só como se tivesse sido desafiado a rouba-lo a qualquer custo, mas querendo provoca-lo também, queria enfrenta-lo.
Logo pude ouvir a porta do quarto se abrindo, o som dos passos dele no piso de madeira aumentando em minha direção.
Pude encara-lo de frente, era mais baixo que eu, cabelo, bigode e barba branca. Fiquei alguns segundos em silêncios olhando no fundo dos seus olhos, quando num movimento automático, tirei a arma da cintura e atirei contra o peito dele.
Eu nunca havia matado alguém antes, era uma sensação que jamais havia sentido e não conseguiria explicar, fiquei observando ele tombar e agonizar por alguns instantes enquanto o sangue escorria pelo chão, permaneci contemplando-o por algum tempo até ter a certeza de que já estava morto.
Algo se apagou em mim naquele exato momento, como uma luz que brilhava dentro da minha alma e se extinguiu, eu não entendia o que tinha feito e não sabia o que deveria fazer.
Fugir? Isso seria muito fácil, mas seguir com a vida depois daquilo seria como se minha própria vida não tivesse valor algum, não era possível continuar vivendo levianamente depois de ter encarado a morte, tudo havia mudado, ele levou uma parte de mim que eu não queria e por isso nada mais me restava, então sem pensar, mas como se tivesse decidido há muito tempo, eu apontei a arma pra minha própria cabeça e puxei o gatilho.
Eu não sei te dizer o que aconteceu então, também não consigo explicar porque estou aqui agora. Mas a verdade é que a vida tem seu próprio curso e não há nada que se possa fazer, nos resta apenas nos entregar, é isso que faço aqui sozinho no meu quarto escrevendo minhas histórias, eu espero.
Ouço um barulho de vidro quebrando na sala, vou ver o que é.