Pia.


É tarde da noite, ela vai lavar a louça, a cozinha está uma bagunça, caixas de comida para todos os lados, a pia entupida de louça, sábado à noite, ela vai lavar a louça, lavar a louça.
Entra um milhão de corvos pela janela, escurece na cozinha, é tudo culpa dele, é tudo culpa do Valtão, ele a drogou, ela sabia disso.
A louça toda enfileirada pela pia, balcão e fogão, tinha que organizar tudo, não ia fugir das suas responsabilidades, era sua culpa, tinha ficado a semana inteira deitada na cama, chovia roxo, os corvos foram embora, ela pode ver um pouco mais de luz, era a música que ela estava ouvindo, eram os fones de ouvido, era isso, ela estava drogada não percebeu que estava com os fones de ouvido, Valtão a drogou, chovia, chovia.
Não vou me desconcentrar, não vou fugir dessa vez, eu vou lavar a louça, não vou dar mais esse desagrado ao Valtão, já basta ter ficado deitada na cama a semana toda.
Pega uma sacola de plástico, recolhe o lixo, isso, começa pelo lixo, o mais fácil, isso, acalme-se, acalme-se, vai dar tudo certo, a partir de agora as coisas vão ser diferente, isso é um novo começo, vou parar de carregar o peso por tudo que aconteceu até aqui, eu vou seguir adiante, uma nova vida. Abre a torneira, chuvas torrenciais, como devia ser, a panela flutuava na pia entupida como um navio, e chovia, chovia dentro da pia, chovia roxo, ela era a deusa daquilo tudo, ela era Tétis a deusa do mar, sua mãe tinha colocado esse nome nela, chovia lá fora, chovia na pia, era um mar na pia, ela era deusa do mar da pia.
Calma, calma, vamos voltar à realidade, vamos manter as coisas simples, vamos só lavar a louça, para começar, e começar a acertar as coisas, talvez voltar a trabalhar, ajudar o Valtão, a parar de usar remédios, talvez fossem as drogas, ia parar de usar drogas, devia falar pra Valtão parar de usar também.
Tudo vai ser novo de novo, a música começou de novo, ela adora essa música, vai ouvi-la se repetir milhões de vezes até odiá-la. É preciso desentupir para começar, pega o desentupidor, enfia, empurra, apunha-la, faz o que pode, um começo de redemoinho. Está chegando naquela parte de novo, os violinos fazem, por quê? Por quê? Por quê? Ela se pergunta. Por quê? Porque fazer tudo aquilo afinal, ela quer destruir a pia, ela é Tétis, a deusa do mar, sua mãe tinha dito.
Calma, calma, vamos tentar não ir tão fundo dessa vez, vamos tentar não pensar demais, vamos tentar manter a coisa simples, não vamos nos martirizar, nos assombrar, nos torturar, mas por que não? Talvez você goste. Você gosta de se fazer sofrer, e uma hora ou outra acabamos chegando lá, não tem como evitar, uma vez que se sabe que pode bancar a louca fica sempre aberta a porta para voltar lá.
A pia desentupiu toda, a música acabou, desliga a música, silêncio, reconfortante silêncio, a chuva já não está mais roxa, o tempo está devagar e ela se sente letárgica, lava um garfo após o outro, isso lhe causa certo conforto, uma pequena tarefa depois da outra, o tempo passando, consumido em pequenas tarefas superficiais, quer terminar todos os talheres, procura garfo e faca dentro das panelas no fogão, se sente bem novamente, talvez pudesse levar uma boa vida apesar de tudo isso, aquelas 10 talheres ensaboadas já lhe davam certa satisfação, aqueles 4 minutos esfregando-as com a bucha parecem querer demostrar que ela tem o controle da situação, são apenas coisas pequenas, só são grandes na cabeça dela, talvez tudo não seja tão complicado e a vida não seja tão difícil, a pia se desentupiu, ela vai arrumar a cozinha e em poucos minutos tudo do que tinha acontecido não teria tido a mínima consequência, ela ficou a semana toda na cama, outra vez, achou que jamais poderia arrumar a casa do jeito que era antes, jamais poderia se redimir com o Valtão, mas talvez não seja nada difícil, talvez seja como lavar a louça, coisas simples da vida, poderia passar por tudo aquilo e se reaver dos seus crimes, poderia voltar a trabalhar, talvez, ajudar o Valtão, entra um corvo pela porta, um corvo pequeno, que significa o corvo? Esquece o corvo, como esquece? O que significa o corvo? Lava a louça, pra que? Faz qualquer outra coisa então, faz o que quiser, só não faz isso de novo, entra mais um corvo, o que eu devo fazer? Entra mais outro corvo, o que você quer? Entra um milhão de corvos, eu não quero nada, destrói a pia.