O Porco


Era o dia mais bonito do ano, o sol estava laranja no fim do horizonte, e eu como sempre estava me perdendo no meio do mato entre sítios de criação de porcos, eu adorava o cheiro deles, ao contrário do que possam pensar, porcos não fedem, eles não ficam envoltos em fezes afinal, ficam sujos de barro com lavagem que tosta nos seus couros sob o sol destilando um perfume de terra que secou rapidamente após a chuva. Eu adorava esse cheiro, eu me sentia assim, um sobrevivente da podridão.
Fiquei durante muito tempo pendurado nas tabuas do chiqueiro encarando aquela bagunça que os porcos faziam, eles ficavam se enfiando uns entre os outros de forma quase caótica. Comiam algo do chão, bufavam, fuçavam o coxo, voltavam e repetiam tudo de novo, e eu gostava de ficar vendo tudo aquilo, demorava-me seguindo-os com os olhos, em especial um que era maior que todos, preto e branco com focinho de cafajeste que ficava tentando copular com todas as porcas de forma desesperada. Enchia-me de prazer ficar olhando pra ele daquele jeito, parecia não se importar com nada, e por mais que talvez os porcos realmente não se importem com muita coisa, todos os outros pareciam diferente dele, como se não tivessem a mesma coragem, ou como se não tivessem uma personalidade tão forte quanto a dele, ele parecia muito mais seguro de si do que os outros. Finalmente ele parecia ter pegado uma porca de jeito, ele a tinha dominado, e sem precisar usar a sua força ela demonstrava se submeter a ele. Eu queria o mesmo que ele, queria exalar feromônios que fizessem todas as mulheres se submeterem a mim. Eu sorria olhando aquela cena.
- Eu te invejo porco de sorte.
Ele acabou o serviço, parecia satisfeito, e de repente veio pro meu lado, começou a me encarar e disse.
- Por que me inveja?
Fiquei na dúvida se inveja era a palavra correta.
- Eu queria poder transar livremente como você, queria poder tentar comer todas as mulheres que quisesse.
- E por que não faz isso?
- Porque sou casado, e minha esposa não aceitaria. Até poderia trai-la, mas não teria a mesma graça, eu não quero simplesmente foder, eu quero foder livremente.
- Humpft.
O porco bufou, parecia contrariado, virou de costas, olhou para a porca com quem tinha acabado de copular, virou novamente pra mim e disse.
- Por que então está preso a uma mulher que não permite que você se realize plenamente?
- Porque ela realiza outra parte minha, ela supre a minha necessidade de companhia, de fazer planos conjuntos, de querer construir uma família, de dar origem ao meu próprio império.
- Então por que não explica para ela que existe essa outra parte sua que não está se realizando?
- Não é fácil assim, ela não entenderia.
- Se ela não entende significa que não te conhece de fato, que está casada com outro homem, o homem que você aparenta ser mas não é. Você precisa ser brutalmente franco com ela, explicar que está anulando uma parte sua por essa outra parte que julga ser mais importante. Se ela não o entender você vai acabar encontrando alguém que te entenda plenamente, alguém que encaixe verdadeiramente em você.
- Acho que talvez eu goste dela justamente porque ela não entenderia esse meu lado, eu gosto da simplicidade dela, da pureza, de saber que ela jamais cogitou tudo isso, que ela não é uma depravada como eu.
O porco me deu as contas de novo, parecia entendiado, começou a chafurdar na lama de forma descontrolada, se contorcendo com movimentos bruscos, acabou fazendo com que respingasse lama nas minhas calças.
- Ei, cuidado.
Ele me ignorava, e eu queria que ele gostasse de mim, senti uma necessidade de me justificar.
- A vida é assim, você não pode ter tudo o que quer, tem que escolher o que lhe é mais importante, e eu decidi que me importa mais a companhia dela para o resto da minha vida que a realização de alguns desejos temporários. Mas não tem problema, isso não me incomoda muito, creio que já estou transcendendo essa questão de sexo.
O porco virou pra mim e fez um barulho soprando ar pelo focinho como um riso de deboche.
- Você não pode transcender o sexo dessa maneira.
- Claro que posso, eu sei que tipo de pessoa quero ser, não quero ficar me entregando as minhas fantasias e me prejudicando por conta disso, eu sei que se contar pra ela por mais que ela compreenda vai sempre ficar com pulga atrás da orelha. Eu sei que me arrependeria depois. Eu a amo, não quero magoa-la dessa forma, o sexo não é mais importante que isso.
O porco voltou pra sua poça de lama, ele enfiava a cabeça no barro e levantava de forma violenta tentando acertar aquela sujeira em mim.
- Ei, o que está fazendo?
- É preciso rolar na lama pra transcender a lama, não evita-la. Quer chegar ao final da vida ileso? Sem culpas e arrependimentos? Você precisa se entregar a vida e deixar ela espanca-lo, deixar suas marcas em você.
Eu fiquei sem saber o que responder, por mais que achasse que ele era um louco irresponsável que não entendia a profundidade da questão por ser um porco ignorante, havia nele uma potência que eu invejava, uma força de vida, era isso na verdade o que eu invejava, não apenas a liberação sexual mas a autenticidade do seu ser, a sua franqueza selvagem, como se não tivesse dúvidas sobre o que devia ser, ele apenas era, agia como se não precisasse pensar, confiando apenas no instinto do seu ser.
Ele olhou nos meus olhos como uma expressão muito séria e me disse com uma voz muito grave palavras que ficaram até hoje grudadas na minha consciência.
- A partir de agora você vai ser quem você é. Vai existir com toda a intensidade do seu ser, nunca mais vai poupar ninguém de nada, vai mostrar as pessoas quem você é e elas vão te julgar por quem é e não te aceitar pelo que acha que deveria ser. Você não vai mais desperdiçar nenhum momento da sua existência, não vai ficar mais contornando as bordas da vida, vai rolar no meio dessa lama até ficar cheio dela.
Tendo dito isso ele foi embora se enfiando no vão que tinha entre o solo e o piso elevado do chiqueiro onde os porcos dormem.
E eu voltei pra casa pensando em tudo aquilo, e na primeira oportunidade contei pra Lídia tudo o que pensava a respeito de tudo, até mesmo as coisas que sabia que poderiam deixa-la insegura, e deixaram. Claro que ela não aceitou tudo facilmente, dizia que se ela não bastava pra mim que eu deveria procurar outra, que aquilo era apenas uma porta de entrada para abandona-la. Mas como não queria perde-la eu simplesmente não desisti, continuei insistindo na importância dela na minha vida, e tentei explicar honestamente o que eu pensava sobre tudo, sobre sexo, casamento, vida. Foi um período turbulento obviamente. Quando ela me permitiu pela primeira vez transar com outra mulher parecia na verdade uma armadilha, estava me dando a corda para me enforcar, e tendo feito ela ficou ainda mais insegura, pensando que por acaso eu tivesse visto na outra algo que ela não tinha, que a trocaria um dia, que eu me apaixonaria, e não havia nada que pudesse ser dito que a tranquilizasse, apenas o tempo, por mais que ela não gostasse da situação eu continuava sendo honesto sobre os meus desejos, transei com outra mulher e mais outra, e com o tempo talvez ela começasse a notar que essas mulheres me importavam cada vez menos, que eu já tinha transado com dez mulheres e mesmo assim voltava pra ela, fazia tudo por ela, que ela tinha um lugar diferente na minha vida, como uma cúmplice de quem eu não escondia nada, já as outras eram tratadas de forma completamente superficial, elas obtinham de mim apenas um personagem para aquele momento de fantasias, a minha total fidelidade e transparência eram somente da Lídia. E foi assim que eu me libertei, deixei de me importar em parecer bonzinho ou correto, mesmo no trabalho ou com parentes, não me importava mais em escandalizar ninguém, sempre fazia questão de deixar claro o que se passava na minha cabeça, não havia mais volta, todos já tinham uma nova opinião ao meu respeito agora, uma certa repulsa, mas eu já não me importava mais, eu não invejava mais o porco, havia rolado na lama até ficar ficar completamente coberto, e foi aí que eu transcendi.