Portal.


Era uma espécie de portal, duas colunas grandes acinzentadas.
Havia o caos e a destruição.
Ele tinha medo do escuro quando era pequeno, por isso mesmo fazia questão de estar ali a noite, pra se sentir incomodado, pra perder o controle da respiração, pra suportar sua mente disparando milhares de mensagens assustadoras, para temer a possibilidade de todos os perigos, imaginar as piores coisas que poderiam acontecer e sofrer o terror e pânico deixando as pernas bambas.
Existe o caos e a destruição - Repetia para si mesmo a cada acontecimento como uma espécie de vício ou mania.
Chega - Pensou cansado de si mesmo, entediado pela própria personalidade que ele mesmo julgava cretina, infantil e narcisista. Chega de transformar cada acontecimento numa experiência dramática quase espiritual.
A verdade é que as duas colunas eram dois homens num trecho escuro da calçada. Ele devia atravessar entre os dois, não podia desviar pela rua nem pelo gramado, não podia deixar que aqueles dois pensassem que ele tinha medo ou preconceito, já que os dois eram negros.
Isso era o portal, entregar-se ao seu medo, atravessar… Fazia isso desde adolescente quando começou seu processo de desfigurar-se, se livrando da cada traço da sua identidade que lhe envergonhava. Quando se mora numa família com cinco homens fica realmente complicado ter medo do escuro, medo altura, medo de ficar sozinho. Sempre tinha sido o pária entre os irmãos, talvez pela fragilidade e sensibilidade, era o único em sua casa que gostara dos poemas que via na escola, e obviamente seus irmãos não poderiam achar nada mais absurdo e patético.
Chega - Repetiu novamente.
Não ia ficar remoendo a infância mais uma vez e não deixaria que as decisões do presente fossem influenciadas pelas atitudes dos irmãos no passado. Deixaria de pensar tanto em todas as coisas, sobretudo em si mesmo.
Era apenas mais um cidadão andando na rua, um zé ninguém, iria continuar andando sem transformar cada situação em uma cena melancólica de transformação psicológica.
Quando ele passa o maior dois dois o segura pelo pulso.
O caos e a destruição.
O sol nasceu e ele pode ver nos olhos negros da coluna que o mantinha preso. O homem o segurava sem o encarar, parecia não focar em lugar nenhum, como se tentasse ver algo com a visão periférica, como se indicasse que devesse procurar a resposta para aquilo em outro lugar. Foi quando viu do outro lado da rua uma mulher puxando um menino pela mão. A criança chorava, com o rosto vermelho, parecia sofrer verdadeiramente. Essa cena lhe trouxe um sentimento de nostalgia, quis chorar mas não conseguiu, apenas contorceu os músculos da face e fez um cara de sofrimento, seguida de uma risada desequilibrada. Uma parte de si estava sofrendo com a dramaticidade do evento enquanto outra ria do quanto achava patético a si mesmo, mas não era uma risada cruel ou sofrida, talvez fosse pelo cansaço ou porque o pulso doía de tanto que o negro apertava, mas passou a se sentir sereno, era patético mas isso não era algo ruim, era até bonitinho, como um adolescente de 17 anos andando de mãos dadas com a mãe. Suspirou e se sentiu em paz.
- Agora você pode ir.
O acaso e a construção.