Remediando


E de repente se deu conta que o medicamento não estava fazendo efeito nenhum. Dois anos tomando aquele antidepressivo e deu na mesma, nada.
Pouco a pouco foi se sentindo cada vez mais deprimida, mas recusou-se a enxergar o problema. Talvez fosse o trabalho que estava mais chato ou então aquele lote do remédio que estivesse mais fraco mas decidiu não pensar naquilo, se limitou a ficarjogada na cama durante dias inteiros e só quando fechou os olhos e se imaginou dando um tiro na têmpora que resolveu admitir a verdade incontestável de que aquele remédio não estava lhe ajudando e que a felicidade que tanto acreditava sentir não era nada.
Mas as coisas na vida são assim, não só as coisas, as pessoas também. Como quando se apaixona por alguém que julga ser sua alma-gêmea e a cada dia que a vai conhecendo melhor vê que não era o que havia imaginado e pior do que estar com alguém de quem não se gosta, e saber que não existe aquele alguém de quem gostava, a não ser dentro da sua própria cabeça, no meio das suas fantasias.
Ela se levantou da cama, encarou o frasco do remédio, leu o rotulo repetidamente e suspirou. Estava só novamente, então passou a examinar os dois últimos anos da sua vida, e se deu conta de que tinha sido tudo uma mentira, envergonhou-se de todas as vezes que a perguntavam como estava e ela respondia sempre que estava excelente, que havia encontrado a solução para os seus problemas e tudo agora ficaria bem.
Já era o terceiro remédio que tentava, o primeiro durou 3 anos, parecia ser o correto, de depressiva foi pra alegre, de alegre para eufórica, de eufórica para violenta, e quando atirou toda a louça contra a janela deu-se conta do erro.
A troca para o segundo foi imediata, parecia ter acertado, nem depressiva nem eufórica, nem triste nem alegre, nem incomodada nem satisfeita, e depois de 3 anos de completa apatia se deu conta de que o que sentia não era felicidade, não era nada.
Mas o terceiro, esse sim viria para salva-la, mudou sua vida completamente lhe trazendo aquela sensação de equilibro, aquele regozijo em acordar toda manhã, sorrir para o espelho e poder afirmar com tranquilidade “Vai dar tudo certo”.
Os dias se passaram e aquela tranquilidade diminuiu e depois de 1 ano já se esforçava pra acreditar naquilo, dizia com firmeza tentando se acalmar, mais alguns meses e desistiu de dizer qualquer coisa, achou melhor evitar o espelho.
Mas se estava bem aquele tempo todo e não era o efeito do remédio significava que ela própria a fizera feliz, pensou consigo mesma. Esforçou-se para ficar bem, mas não conseguiu. É muito mais fácil ficar bem por causa de alguma outra coisa, da mesma forma que é muito mais fácil enfrentar o dia-a-dia por causa de alguma outra pessoa.
Pensou em dar mais uma chance, mais alguns meses para ver se não era algum problema temporário com o medicamento e foi quando se deu conta que com os anteriores havia feito a mesma coisa e que não queria perder mais um ano da sua vida só por medo de admitir que havia se enganado novamente.
Levantou-se da cama, pegou o frasco com as pílulas no armário do banheiro e despejou na privada, não iria tomar mais porcaria alguma. Foi quando ligou pra mãe para contar da decisão, essa surpreendentemente a apoiou, e disse que ficasse tranquila,“Vai dar tudo certo”, disse ela, desejou boa noite, colocou o telefone no gancho, sorriu de forma boba e sentiu os olhos ficarem marejados, afinal, era ela quem pegava os remédios para a filha, 60 comprimidos de placebo por mês, o psiquiatra lhe explicara tudo. A filha era viciada em remédios.