Porque as tempestades não cessam


- Porque todos os seus livros tem mortes? - Perguntou ela com expressão de desdém.
- Porque sim. Uma morte abre a história e tira o equilíbrio de tudo, outra morte fecha o ciclo devolvendo o equilíbrio - Respondeu ele parecendo confuso. Na verdade não estava, aquilo tinha um sentindo muito mais poético dentro de si, mas não queria transparecer pra sua irmã que pensava muito na morte.
- A morte dá sentido à vida, e por isso dá sentido aos meus livros também. Não existe nada mais mortal do que viver. - Poetizou ele.
- Seguindo essa sua lógica, também não há nada mais vívido do que morrer. - Argumentou ela tentando lhe causar certa estranheza.
Ele se deixou ficar pensando naquilo por alguns instantes. Em como era vívida a morte. Como causa um baque na cena do cotidiano tirando tudo da inércia e fazendo as coisas tomarem vida.
Pessoas chorando, o desespero, a dor, a preocupação, a impotência. Levando todos a pensar nas coisas mais profundas e cometer as atitudes mais humanas.
Os dois ficaram no sofá em silêncio por alguns minutos. Ele tinha em sua mão direita apoiada no braço do sofá um copo de uísque.
Ela odiava que ele bebia. Ainda mais uísque, que parecia ser bebida de velhos, maduros eruditos. E ele tinha apenas 24 anos. A causa de maior irritação nela é achar que ele ostentava aquele copo unicamente pra ostentar essa imagem.
E não estava de todo errada. Convenhamos, uísque é algo horrível, mas te deixa bêbado com uma classe quase tão fina quanto a da própria bebida.
E aquele gosto forte de álcool rasgando a garganta lhe denotava certo ar de nobreza e coragem.
- Eu andei meio triste esses dias. - Quebrou ela o silêncio. - Nossa família parece estar se separando, parece que estamos perdendo um tempo que não voltará mais.
Eu sinto falta de termos sidos mais unidos, de termos mais fotos juntos, essas coisas.
Ele achou a consideração dela talvez um pouquinho melodramática. Mas em geral as mulheres são melodramáticas.
Então procurou conforta-la.
- Não temos muitas fotos juntos porque na nossa infância fotografia era cara. Mas depois com o advento de Máquinas Digitais e celulares, eu tenho bastante fotos de nós dois aqui.
Ela pediu pra olhar e ele lhe entregou o celular que estava no bolso.
Haviam realmente muitas fotos no celular. Por volta de 200, ela gostaria que pelo menos 100 fossem com ela, mas tinha apenas umas 20.
Isso a satisfez parcialmente
Chovia forte. O ruído das águas atrapalhava muito o diálogo. Por isso o tempo que passavam juntos era em sua maior parte no silêncio.
Ninguém queria quebrar o próprio estado de espírito com berros sem sentido.
E lá fora havia as enchentes. A cidade toda derretia.
Os prédios desabavam em si mesmos, como a cobertura de um sorvete num dia quente de verão.
As águas atravessavam as ruas a galopes, inundando todas as almas ao seu redor.
- A vida é mesmo uma coisa idiota - irrompeu ela da parte mais triste do seu cérebro. - tudo está desmoronando lá fora, tudo está desmoronando aqui dentro.
Ele levantou o pé para apoiar sobre a outra perna.
O carpete encharcado fez um barulhinho engraçado quando a água se desprendeu da sola do seu sapato.
- A vida não é idiota. - replicou ele. - Nós que somos. Essa chuva também é bem idiota. Nos provavelmente vamos morrer hoje ainda se ela não parar.
- Você pode fazê-la parar e mesmo assim não o faz. - Prosseguiu ele calmamente.
Ele queria galgar até a alma dela para parar com tudo aquilo, mas sabia que o coração que ali pulsava era arisco. Tinha que dar passos pequenos para não afugenta-lo.
- Eu não posso parar a chuva por que minha alma está inundada. - Defendeu-se ela. - E você sabe que não posso fazer nada quanto a isso. A culpa não é minha, é sua.
Ele não achava que era culpa dele. A alma dela estava longe demais pra ele poder alcançar. Se tanta água havia entrado não foi culpa dele, e sim porque ela o fizera assim para puni-lo.
A alma dele começa a se molhar também, mas ele se esforçava, retirando cada brisa do seu cérebro, necessária para seca-la.
- Eu te amo tanto quanto a água que em ti habita. E se sua alma está inundada, é porque cada gota de água é uma fração do meu amor por ti. Que não posso diminuir. Então se morrermos pela chuva, eu morrerei feliz. Morrerei alagado do meu amor por ti.
Ele se levantou e começou a procurar na estante alguma coisa. Tateava os livros molhados deixando que as páginas despedaçassem entre seus dedos.
Entre um livro de obras de arte e um peso para papel ele retirou uma foto.
Era a única coisa daquele universo que estava intacta.
Era uma foto dele com a cabeça apoiada num monte de areia da praia.
Passou a foto para os dedos dela que começou a encarar aquela figura com curiosidade.
- O que tem de tão especial a foto? - Questionou ela contrariada.
- Foi você que me fotografou nesse dia. - explicou-lhe.
A água ainda se espalhava por toda a sala. Enchia as xícaras na pia. Enchia o copo dele de uísque. Enchia a alma dela.
Ele abriu uma janela, fazendo com que o nível da água subisse mais rapidamente.
Uma brisa fria se esgueirou e invadiu toda a sala, arranhando o rosto dela. Fazendo-a acordar daquele torpor.
Ele havia lhe traído e para ela isso era mais doloroso do que seu próprio afogamento.
Ele havia se distanciado dela e desde então tudo perdeu o controle. Aquela ligação entre os dois havia morrido.
Uma morte para desequilibrar e outra morte seria necessária para resgatar o equilíbrio.
Ele sabia o que precisava ser feito só não sabia se tinha coragem o suficiente pra fazê-lo.
Ele se levantou para encher o copo húmido com mais bebida.
- Você se lembra daquela vez que ficamos bêbados juntos? Com um conhaque barato? Ainda bebemos com limão e sal como se fosse tequila. – Perguntou ele com ironia como se quisesse anima-la.
- Infelizmente ainda me lembro. Foi uma idiotice de adolescente. Parece que você nunca vai crescer - repreendeu ela secamente.
Os trovões reverberavam pela pele dos dois, fazendo com que seus corpos ficassem trêmulos.
Ele andava ansioso pela sala, empurrando a água que quase já lhe alcançava os joelhos.
De repente um relâmpago acendeu toda a casa assustando-o com aquele clarão dentro de sua mente.
E por um minuto ele se descontrolou e no auge do seu desespero começou a discutir com ela.
- Eu fiz o que tinha de ser feito. Eu precisava viver, eu precisava ir embora pra poder conquistar minha própria vida, pra poder amar minha própria vida. Agora sim eu sinto que estou vivo, que eu tenho uma vida e não sou mais apenas uma extensão sua.
Ela permanecia o encarando com frieza. Ele arfava e sufocava, em partes por causa do seu nervosismo, em parte por causa da água que parecia cada vez mais gelada que subia pelas coxas o deixando cataléptico.
Ela continuava o encarando como se fizesse aquilo propositadamente para puni-lo.
- E você está acabando com tudo – Soltou ele mais um desabafo, que parecia querer continuar, mas acabou desistindo.
A sua respiração forte ia desacelerando como se ele tentasse se acalmar.
Ele voltou a sentar-se na poltrona. Estava desolado.
Com a mão esquerda segurava o copo e com a direita ficava brincando de rasgar a água que já havia alcançado a sua cintura com a ponta dos dedos.
Ele havia perdido o jogo, havia demonstrado fraqueza, agora não passava de um prisioneiro dela, que tendo visto que a sua segurança tinha ido embora, poderia dominar a situação.
- Eu tenho uma vida. Eu me casei, eu também saí de casa. Mas eu sempre continuei aqui por perto, nunca abandonei você, nunca abandonei nossa família. – Discursava ela pausadamente, colocando um peso em cada palavra que martelava em sua cabeça.
Já estava começando a ficar bêbado nesse ponto. Largou-se no sofá e mal olhava para os olhos dela. Colocou a mão em cima da cabeça apoiando a testa e deixou-se ficar por alguns instantes.
Havia desistido de tudo já, estava exausto e a bebida lhe havia causado aquela melancolia onde no final das contas pouco importasse se desistisse ou não.
O nível da água continuava subindo. A piscina em que tudo havia se transformado abrigava livros, panelas e outros objetos de pouco valor que boiavam na superfície da água.
A paisagem do local já anunciava o fim, e por um momento ele sabia que era assim que havia de ser. Calmo e tranquilo, vagaroso e frio.
Apesar de toda aquela água significar a morte era impossível de notar o quanto ela simbolizava a vida.
À medida que ia crescendo, e enchendo e envolvendo cada um ali. À medida que ia possuindo, completando e absorvendo cada um ali.
Decidiu que nada faria além de aproveitar aquele momento. Sentiu com gosto a água preenchendo-lhe o umbigo. Subindo pelas suas costas.
Sentiu a refrescância daquela morte a lavar-lhe as axilas. A envolver o seu pescoço. E quando ela finalmente lhe alcançou o queixo, inclinou a cabeça para baixa. E quase como um beijo naquele espelho d’água, experimentou um pouco daquilo que já fazia parte de si.
Levantou-se de sua da sua poltrona, ergueu sua irmã pela mão de modo a convida-la para uma dança.
Ela se levantou e abraçou-o. E começaram a dançar uma valsa lenta e triste.
Aquilo não era apenas uma dança sem sentido. Era uma referência, a quando eram pequenos, suas brincadeiras, suas intimidades. Como o resgate de uma relação que ela achou que havia morrido.
Ela olhou para ele e sorriu fracamente. Ambos sabiam o que iria acontecer.
Algumas lágrimas escorreram dos olhos que logo se perderam em meio a toda aquela água.
E no último passo daquela dança mortal, e curvou-a para trás de modo que ficasse pendente sobre o seu braço e submersa na água.
Com a outra mão, segurou-lhe o rosto e a acariciava de modo firme, enquanto via-a abandonar seus últimos fôlegos de ar.
E quando ela se acalmou, com a mesma mão, apenas fechou-lhe os olhos.
Mas a tempestade não cessou.