A Velha


A feira estava movimentada como sempre, os odores se confundiam, o pastel fritava, os aslfalto rescendia a peixe, as frutas estavam acabando, sobravam apenas aqueles objetos pitorescos como vestido de algodão, brinquedos de plástico, bijouterias e panelas de pressão.
- Ela já parou de fumar?
Perguntava a velha segurando-o pelo braço, vinte anos haviam se passado e ela continuava com aquela mania infernal de alfinetar-lhe, como uma sessão de tortura com agulhas que levava décadas, uma agulhada aqui, outra no mês que vem, as espetadas se acumulavam e o envenenavam, ele só conseguia imaginar dessa forma.
Deram mais alguns passos, ele ganhava tempo para pensar se colocando atrás dela como para se afastar da multidão, ele já a conhecia, sabia o que estava querendo, ela adorava fazer perguntas para as quais não gostava de ouvir a resposta, só pra reprova-lo em seguida, ele já sabia o que estava por vir e mais uma vez procurou a atitude mais passiva que podia encontrar, por alguns instantes pensou em responder outra coisa só pra não ter que aguentar mais um sermão, pensou em dizer que não se devia perguntar coisas sobre quem não lhe agrada só para desagradar-se, mas a velha faria um sermão maior, sobre a falta de respeito dele, ou iria se calar para puni-lo em silêncio, ele calculou todas as possibilidades e viu que a que lhe traria menor sofrimento seria somente ceder, amparou-a pelo lado, olhou-a nos olhos e tentando não demonstrar expressão alguma, como a face vazia de todas lhe disse de forma firme e clara para que ela não o fizesse repetir.
- Não.
Tentava ser breve de forma que a estimulasse o menos possível a prosseguir com aquele diálogo, mas não era uma questão de probabilidade, não importava se ele não tinha dado oportunidade alguma para ela falar da sua esposa, ela já tinha se decidido a cutucar mais uma vez a ferida e assim o faria. O tempo começava a mudar, como acontece aos domingos ensolarados, lá longe uma nuvem surgia, a parte frontal da cabeça desamparada pela meia calvice agradecia, o pastel quente numa mão, a outra segurando a alça do vestido florido da velha, alguns que os viam supunham ser um casal, a velha se alimentava da alma dele.
- Você viu que bonita está a Lucinda da igreja?
Por um instante ficou aliviado, pelo menos tinha sido sutil, tomou uma espetada mas não teria que começar outra discussão com ela. As vezes chegava a pensar que o louco era ele, que era tinha a velha em pior conta, talvez tivesse sido algo ingênuo e ele que se vitimizava em excesso, como um adolescente ansioso pra ver nos pais uma causa para sua rebeldia, isso o enlouquecia. O calor parecia aumentar, sua figura branca corpulenta cozinhava dentro de uma camiseta com bolso e bermuda de elástico, enquanto a velha nem suava, não sabia se ela tinha se maquiado, seu nariz pontudo demonstrava uma respiração calma.
- Ela está doida pra arranjar um marido pra ter um filho.
Era isso, não tinha sido ingênua, ela queria provoca-lo, tinha aperfeiçoado a técnica pelos anos, o torturava desde que levou Luna em casa pela primeira vez, mas fazia de forma tão sutil que ele não podia culpa-la, e quando fazia ela o acusava de ser injusto, que não concordava mas respeitava a sua decisão e não tinha dito nada que demonstrasse o contrário. Ouviu um trovão longe, a nuvem parecia ter escurecido, a feira começava a esvaziar.
Vamos pra casa?
Ele perguntou querendo indicar que queira terminar o assunto, no fundo queria mesmo era puni-la apenas um pouquinho, como um estimulo negativo apenas para reforçar seu comportamento, como quem burrifa água no nariz de um cachorro que fez algo errado, mas ele não estava comando, e por mais que se julgasse em posição de estar, ela tinha mais confiança em si do que ele, então o comando era dela.
Não, eu decidi que vou querer o pastel.
Mais uma vez tinha se arrependido do seu gesto, era sempre a mesma coisa, ficava semanas sem ver a sua mãe, se sentia culpado, e quando aparecia se lembrava o motivo do sumiço, mas não importava, ele só tinha que fazer a visita, comparecer periodicamente, pois quanto maior o intervalo das suas visitas mais implacável ela era com ele. Certa vez tinha tido a estúpida ideia de levar as duas para um final de semana na praia, queria demonstrar para sua mãe que teria muito mais momentos de prazer se elas se entendessem, mas em que mundo um filho ensina algo a mãe? Era ela que tinha que ensinar algo a ele, e tinha se esforçado pra deixar claro para ele todas as falhas do seu relacionamento, que estava iludido e devia ouvir sua mãe que se importava verdadeiramente com ele, não como a Luna, pois seu interesse sempre seria tendencioso. Dissera isso pois sem querer Luna havia contado a velha da galeria que estava montando no shopping, e essa logo descobriu que tinha sido com parte do dinheiro que seu falecido marido tinha deixado para o filho e usou isso para atormenta-lo o dia todo, a tarde no sábado quando ele achou que não suportaria mais aquela tortura perguntou-a se queria ir embora antes do domingo como haviam combinado, e apesar de estarem tendo os três um dia horroroso a velha perguntou-lhe se não poderiam ficar até segunda.
Ela estava fazendo de novo, iria puni-lo tanto quanto achasse necessário, e ele devia apenas suportar sua penitência, o preço que tinha que ser pago para que pudesse viver sua vida.
Mãe, uma parte de mim sempre vai precisar da sua permissão pra ser feliz.
A velha olhou-o como se tivesse confusa e ultrajada ao mesmo tempo.
Pois fique feliz ué, não tem feito tudo o que quer? Sua vida não é do exato jeito que você queria?
Mas a senhora não gosta da Luna.
Quem tem que gostar da Luna é você oras.
Ele se sentia um idiota, em partes porque ela tinha razão, as vezes ficava imaginando que ela o testava de propósito, que queria que ele a enfrentasse e deixasse de ser submisso a vontade dela, mas quando tentava racicionar friamente sobre o fato pensava que não importava qual era a intenção da velha, que ele transcenderia a tudo aquilo se conseguisse sempre agir de forma adulta, como um homem que cuida da mãe idosa com bom humor e leveza, alguém que está tão confortável no controle da situação que não poderia abala-lo, mas ele não era tão forte, três comentários indiretos da mãe e ele já tinha desabado, pra sua sorte começou a chover.
Eis que três meses passados e a velha desanda a morrer, no funeral em sua antiga casa o filho não soltou uma única lágrima, muito pelo contrário, repreendeu Luna por ter deixado escapar algumas.
Não faça isso, sabe que ela te odiava.
Talvez a única reação que tinha demonstrado foi se deitar na cama da mãe e ficar lá olhando para o teto durante uma hora inteira, poderia ter deitado na sua antiga cama que a mãe tinha preservado tão bem por quinze anos na esperança que se divorciasse e retornasse, mas preferiu se deitar na cama da mãe.
Os dias seguintes passaram-se quase normais, havia apenas uma pequena mudança no comportamento dele, não que não estivesse racional e razoável, mas levava as coisas com um pouco mais de seriedade que levava antes, ele sempre achava que a maioria das questões a serem discutidas são tão desimportantes que não vale a pena perder nem tempo da discussão com elas, mas agora talvez estivesse sendo um pouco menos flexível, não apenas ignorando a maioria das coisas como fazia antes, como quem ter medo de ser manipulado, mas parecia normal com tudo que havia acontecido, era uma necessidade natural de honrar a memória da mãe.
Certo dia estava assistindo esses programas de reportagem ao vivo que mostram os casos de violência quando Luna se sentou do seu lado, mudou de canal e começou a fumar.
Bem que você poderia ter parado de fumar né.
Disse aquilo como alguém que está completamente furioso mas tenta se manter cortês para não parecer que não tem a razão. Aconteceu é que Luna realmente parou de fumar, pelo menos na frente dele, e ele se desculpou por ter feito tal pedido, parecia ter voltado ao normal, fazia algumas visitas periódicas a sua antiga casa para ajeitar as coisas, e conforme os dias se passavam ele ia se tornando pouco a pouco mais implacável com ela daquela forma novamente por conta de alguma falha dela, eles discutiam, ele se desculpa, voltava ao normal e tudo se repetia novamente, até quando tiveram a discussão final, ele disse que ela errou ao usar o dinheiro da herança dele para fazer a galeria, que era uma acomodada cheia de caprichos, feito isso bateu a porta e foi embora.
No dia seguinte ele não apareceu e Luna não tendo notícias do marido começou a ficar preocupada, já imaginava que tinha ido se abrigar na sua antiga casa e quando foi lá procura-lo viu algo que jamais lhe sairia da mente. Ele estava de é, em frente ao espelho do banheiro, vestido com a camisola da velha, seu colar também estava no pescoço e na mão segurava um quadro do seu falecido pai.